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Discurso de Olavo Bilac
 

Proferido em 29 de setembro de 1909, por ocasião de ser afixada uma placa de bronze na frontaria da casa em que viveu Machado de Assis.

Poucas palavras, poucas e carinhosas, devem ser ditas aqui, para que em tudo a comemoração seja digna do comemorado. Seria uma ofensa à memória do Mestre qualquer manifestação que destoasse da sobriedade encantadora e do recato severo que governaram a sua vida artística e a sua vida íntima, a sua teoria literária e o seu estilo. O culto deve ser sempre adequado ao nume: bulhento e borbulhante, para os que tiveram ou têm o amor da adoração pomposa, – e simples e pensado, e mais tecido de ternura e de respeito do que de entusiasmo, para aqueles cuja sublimidade reside mais na solidez do que no brilho, mais na verdade do que na aparência, mais na harmonia temperada e justa do que no exaltamento nem sempre fecundo.

Quando se dirige a certos homens, ainda a mais ardente admiração há de ser calma e raciocinada, se quiser honrar o seu objeto. Machado de Assis temia acima de tudo o barulho e a cintilação das palavras vazias, que tanto agradam aos espíritos fúteis. A sua face triste e suave, o seu modo natural, a brandura da sua palavra e de seu gesto, a modéstia dos seus gostos, a moderação dos seus juízos, a sua filosofia que condenava como crimes as cegueiras da paixão, e o seu estilo que repudiava como vícios os exageros retóricos, - tudo nele aconselhava e pedia, não o aplauso frenético, mas a afeição sincera e a consideração inteligente; tudo nele parecia dizer: não me admireis; amai-me, e compreendei-me...

Amaram-no com extremada ternura os seus íntimos; compreenderam-no e compreendem-no os seus companheiros e condiscípulos, os seus irmãos em arte, aqueles que, pelo hábito de pensar e de escrever, podem sentir e entender o inigualável tesouro de idéias e de expressões que se encerra nos seus livros, monumento perene votado à glória da língua vernácula. Não o compreendeu ainda todo o seu país, porque ele foi de algum modo um homem superior à sua época e ao seu meio; mas essa compreensão unânime há de vir com o tempo, com o aperfeiçoamento progressivo e fatal dos homens, com a fixação definitiva de uma cultura geral que já começa a afirmar-se. Então, o Mestre será admirado, com a admiração consciente e precisa que a sua obra requer; e a história da nossa civilização há de guardar com orgulho esse formoso legado, esses livros em que o ceticismo vive de par com a piedade, em que a misericórdia pela miséria humana tempera o amargo da ironia, em que a descrença é adoçada pela bondade e em que as idéias meigas ou duras, de tolerância ou de revolta, sempre se vestem de uma forma pura e nobre, simples e majestosa, aliando a força à graça, a energia ao bom gosto.

A cerimônia de hoje é íntima. É a romaria dos primeiros fiéis. É a primeira peregrinação dos que assentam as bases do culto. E é a homenagem da família literária ao chefe que perdeu.

Um dia, descrevendo a austera figura de Spinoza, em um soneto de rara beleza, Machado de Assis mostrou-nos o filósofo, grave e solitário, no seu retiro de lida e pensamento, apartado das vãs ambições e das cobiças grosseiras, cativo apenas do mundo interior das suas idéias:

"Sôem cá fora agitações e lutas,
sibile o bafo aspérrimo do inverno,
tu trabalhas, tu pensas e executas,

sóbrio e tranquilo, desvelado e terno,
a lei comum, e morres, e transmutas
o suado labor no prêmio eterno..."

Inspirou e ditou estes versos uma afinidade real entre dois espíritos de eleição. Sem o temperamento combativo do sombrio Spinoza, o nosso grande escritor teve a mesma dignidade de vida, a mesma abnegação modesta, a mesma escravização ao domínio exclusivo das idéias, – e o mesmo gosto da solidão, que em certos homens não é timidez nem orgulho, mas somente a tristeza de quem se reconhece diverso do comum das gentes e fadado a viver, se não ignorado, ao menos mal entendido dos seus contemporâneos.

Como não recordar esses versos, na visita que hoje fazemos à casa do escritor filósofo, um ano depois da extinção da sua vida?

Aqui viveu Machado de Assis vinte e quatro anos de trabalho sem trégua e de pensamento incessante. Neste quieto recanto da cidade, longe de “agitações e lutas”, fugindo à curiosidade pública, ao louvor da multidão, à popularidade fácil, e à sedução brilhante mas estéril da política, – dividiu ele o melhor da sua existência, vinte e quatro anos da sua maturidade fecunda, entre o gozo recatado da sua feli-cidade doméstica e o gozo igualmente discreto da sua arte. Aqui sonhou, aqui pensou, aqui edificou a sua glória. Noite alta, entre estas folhagens amigas, que resguardavam zelosamente o ninho do seu afeto e a oficina do seu pensamento, brilhava o clarão da lâmpada que alumiava a sua operosa vigília. Conheciam-no bem estas árvores, estas flores, e as aves que o saudavam ao romper da manhã; todas as coisas inanimadas e todos os seres inocentes deste poético retiro conheciam e amavam aquele austero poeta e aquele meigo beneditino, voluntariamente clausurado na tarefa paciente e no sonho criador. Aqui experimentou ele, com a satisfação de ser amado e com as agruras dos padecimentos físicos, o prazer de tratar o idioma que prezava tanto, as torturas da análise interior, os sobressaltos e angústias da criação literária, a febre a um tempo deliciosa e cruel da composição, e a ânsia dos que correm atrás da perfeição esquiva... Daqui saíram muitos dos seus melhores livros, vasta cadeia de primores, coroada por essa flor de saudade e amargura, por esse amável “Memorial de Aires”, onde, sob o véu de uma ficção romanesca, a alma viúva e ferida do escritor celebra na virtude e na ventura de um lar modelo a antiga ventura e a antiga virtude do seu próprio lar enlutado.

Aqui, por vinte e quatro anos, ele trabalhou, pensou, executou “a lei comum”, e morreu e transmutou “o suado labor no premio eterno...”

E aqui vem hoje a Academia Brasileira trazer-lhe a expressão comovida do seu respeito e da sua saudade.

Perdendo o Mestre não perdemos o exemplo constante, a viva lição, o modelo nobre que ele sempre nos foi. Há de acompanhá-lo na morte o mesmo afeto que lhe dedicamos em vida. Aqui vimos, e viremos; e aqui virão, quando tivermos desaparecido, aqueles que nos sucederem. Já três de nós, depois de Machado de Assis, no escasso prazo de um ano, desertaram também, levados pela morte, o seio da Companhia (Ver Nota). Mas toda a nossa força reside na continuidade moral da nossa missão. Não nos sucedemos apenas: também nos continuamos; mudam-se os nomes, mas fica o ideal que os encadeia: há de perdurar na Academia, exemplar e consoladora, a memória do Mestre. E há de o tempo morder e devorar esta placa de bronze; hão de as soalheiras e as chuvas arruinar e aluir esta casa; - mas, se um horroroso cataclismo social não dispersar esta nossa raça, e não aniqüilar a língua que falamos, a nossa romaria de hoje terá sido o início de uma glória perpétua.

Olavo Bilac

Nota: Artur Azevedo, Euclides da Cunha e Guimarães Passos, falecidos, respectivamente, aos 22 de outubro de

1908, 15 de agosto de 1909 e 9 de setembro de 1909.
Extraído do livro "Rua Cosme Velho, 18 - Relato de Restauro do Mobiliário de Machado de Assis".

 
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