Machado de Assis

Sergio Paulo Rouanet, diplomata, cientista político e ensaísta, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 23 de fevereiro de 1934. Eleito em 23 de abril de 1992 para a Cadeira n. 13, foi recebido em 11 de setembro de 1992, pelo acadêmico Antonio Houaiss.

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Depoimento de Sergio Paulo Rouanet
Espaço Machado de Assis

29/05/2002

 

O bicentenário de Victor Hugo

Nós estamos vivendo no ano de 2002, portanto são exatamente duzentos anos desde o nascimento de Victor Hugo, que a gente sabe inesquecivelmente quando nasceu por causa do poema inicial de Les Feuilles d'Automne, que diz: Ce siècle avait deux ans (Esse século tinha dois anos)...

Então seria oportuno aproveitar o momento de bicentenário, no Brasil, para tentar de alguma maneira medir a influência que Victor Hugo exerceu na vida literária do Brasil durante essas décadas, principalmente a partir de meados do século XIX, já que Victor Hugo foi provavelmente o autor estrangeiro que maior influência exerceu na cultura brasileira, no pensamento brasileiro, na versificação dos poetas brasileiros. Então, por todas essas razões, efemérides são boas para isso. Não é propriamente que a pessoa comemorada ressuscite no ano da efeméride e volte ao repouso eterno até a efeméride seguinte. Eles ficam vivos.


Victor Hugo e Machado de Assis

Victor Hugo é um nome vivo, é um nome de uma atualidade permanente. Mas é verdade que, quando existe um jubileu, uma efeméride, a atenção da mídia, da opinião pública, dos intelectuais se concentra nessa pessoa, e é positivo isso do ponto de vista de um país como o Brasil, que foi em parte moldado, num certo período de sua vida, pelo pensamento de Victor Hugo.

E no caso de Machado de Assis, que é o maior escritor brasileiro, isso poderia até ser visto à primeira vista como uma refutação dessa tese de que a cultura brasileira foi hugoana num certo sentido, porque à primeira vista não existe nada menos hugoano, do ponto de vista formal e estilístico, do que o estilo de Machado de Assis. Victor Hugo é pletórico, trabalha antíteses e usa todos os artifícios mais pirotécnicos da retórica, usa com mais sabedoria todos os tropos, e Machado de Assis os usa, evidentemente, mas de uma maneira mais discreta, como convém ao seu temperamento mais tímido, mais retirado.

O estilo Machado de Assis, nesse sentido, pode ser visto até como antitético. Até essa comparação Victor Hugo/Machado pode ser vista como uma ilustração da figura da retórica que Hugo mais gostava, que era a antítese. Hugo trabalhava com a antítese da luz e da sombra. Podemos trabalhar aqui à luz de outra antítese, que é a da pletora, da desmedida, do descomunal, que é o estilo, a retórica do pensamento de Hugo, comparado com a timidez e com a contenção machadiana.

Seria difícil à luz disso - à primeira vista, aparentemente, não existe nada menos hugoano do que Machado -, mas as aparências costumam enganar, e dessa vez enganam mais do que em qualquer outro momento, porque de fato Machado de Assis sofreu uma profunda influência de Victor Hugo, e trabalhou Victor Hugo, pensou Victor Hugo, escreveu sobre Victor Hugo, escreveu à maneira de Victor Hugo.

Eu acho que seria ocioso, talvez até contra-indicado, a gente categorizar demais Machado de Assis crítico, Machado de Assis tradutor etc., mas vamos ver se à luz de algumas categorias, algumas facetas da personalidade de Machado de Assis, a gente pode precisar, de uma maneira um pouco mais rigorosa, a relação entre Victor Hugo e Machado de Assis.

Machado de Assis como tradutor: muita gente traduziu, muitos brasileiros traduziram Victor Hugo. Há mais de cem brasileiros que traduziram Victor Hugo, D. Pedro II é um desses cem, e Machado de Assis é outro. Machado de Assis traduziu nada menos que um dos grandes romances de Victor Hugo, Os trabalhadores do mar (Les travailleurs de la mer); a primeira tradução que existe é uma tradução de Machado de Assis.

Machado de Assis acompanhou o pensamento de Victor Hugo, rastreou, digamos, como crítico literário, a influência de Victor Hugo nos seus contemporâneos. Há vários ensaios críticos de Machado de Assis, em que ele tenta examinar a influência exercida sobre seus contemporâneos pela poesia de Victor Hugo. E há o trecho de uma análise que ele faz sobre o panorama atual da literatura brasileira em que diz que todos esses jovens, todos eles mais ou menos hugoizados, trabalhavam sob a influência direta da poética de Victor Hugo, mas faltava a eles algo que não faltou aos jovens intelectuais que, na França, em 1830, se agruparam em torno da já então gigantesca personalidade intelectual de Victor Hugo.

Todos eles eram românticos e tinham uma poética e essa poética tinha sido dada pelo famoso prefácio do Cromwell, da peça Cromwell, em que Victor Hugo faz, digamos, para a estética romântica, o que Boileau tinha feito para a estética neo-clássica. Tenta dar os traços gerais do que seria a nova sensibilidade literária do Romantismo e que, basicamente, se resume na idéia do desaparecimento dos gêneros, da fusão dos gêneros, um drama concebido como um amálgama do riso e do choro.

Nós estávamos vendo um pouco uma referência a isso em uma das características de Machado de Assis (não tinha pensado nisso, mas a medida em que a gente vai falando, as idéias vão surgindo), é possível que uma das influências menos visíveis, digamos, da estética de Victor Hugo no Machado de Assis seja justamente essa mistura da galhofa, da melancolia - "a pena da galhofa, a tinta da melancolia" etc. - que é uma das características estruturais do estilo de Machado de Assis. Talvez isso se deva justamente a essa estética da mistura: a estética da mescla do riso e do choro, que está contida no prefácio do Cromwell, como uma das características definidoras da nova sensibilidade literária do Romantismo.

Outra característica é o desaparecimento das fronteiras entre os gêneros. Uma outra característica seria a dissolução das unidades clássicas que, desde Boileau, caracterizavam o teatro francês, a regra das três unidades: unidade de ação, unidade de lugar, unidade de tempo. Evidentemente, isso não existe mais no Romantismo. Enfim, há toda uma série de audácias formais que foram autorizadas nesse prefácio do Cromwell, em torno das quais se unificou a geração romântica de 1830.

Aí, voltando ao Brasil, diz Machado: faltava aos jovens poetas brasileiros, influenciados por Hugo, essa estética unificadora, faltava esse prefácio, faltava um manifesto, que depois o Modernismo passaria a ter, principalmente nos dois grandes manifestos, o Pau Brasil e o Antropófago, de 1924 e 1928, respectivamente. Machado já pressentia que, para a nova estética e para a nova sensibilidade, faltava um manifesto desse tipo, faltava um Cromwell.

Machado de Assis, além de ter sido tradutor de Victor Hugo, escreveu um poema, existe um poema dedicado especificamente a Victor Hugo (mais tarde voltarei a isso, talvez seja a maneira mais apropriada de encerrar este depoimento), mas existe também uma influência de Hugo subliminar, por assim dizer, que foi apontada por alguns críticos. Como, por exemplo, Eugênio Gomes. Eugênio Gomes diz que um dos livros de poemas de Machado de Assis, Ocidentais, é quase que uma alusão - não é um plágio, porque a alusão é perfeitamente perceptível para os contemporâneos de Machado de Assis. Todo mundo sabia do que ele estava falando e por que ele tinha dado esse título. É o título do poema chamado As Ocidentais, que é uma alusão sub-reptícia, latente, ao título de um dos livros de poemas mais conhecido do Victor Hugo, chamado As Orientais.

E existem poemas que guardam alguma semelhança, embora essas filiações sejam sempre problemáticas e subjetivas. É possível distinguir, por exemplo, naquele famoso poema do vaga-lume [Círculo vicioso], a idéia do ciclo do vaga-lume que tem inveja da Lua, a Lua dizendo..., e que termina com o Sol dizendo: Por que não nasci eu um simples vaga-lume? Essa idéia é praticamente a transcrição de um dos poemas de Victor Hugo na Légende des Siècles. As figuras são diferentes, mas a idéia da escalada recente do menos ao máximo, e depois de volta do máximo ao menos, essa idéia da escalada e desescalada é uma idéia hugoana, que foi retomada por Machado de Assis nesse poema O vaga-lume.


A homenagem de Machado a Victor Hugo

E finalmente, a última camada, digamos, o último estrato da relação Machado de Assis/Victor Hugo, que resolvi deixar para o fim, que é um poema, um epicédio, um poema fúnebre, que Machado de Assis dedicou a Victor Hugo por ocasião de sua morte. Victor Hugo morreu em 1885. Acho que esse poema é tão bonito, que pode que pode ser visto como um fecho de ouro deste depoimento. Chama-se 1802 [Ce Siècle avait deux ans] - 1885, e é o seguinte:

Um dia, celebrando o gênio e a eterna vida,
Vitor Hugo escreveu numa página forte
Estes nomes que vão galgando a eterna morte,
Isaías, a voz de bronze, alma saída
Da coxa de Davi; Ésquilo que a Orestes
E a Prometeu, que sofre as vinganças celestes
Deu a nota imortal que abala e persuade,
E transmite o terror, como excita a piedade.
Homero, que cantou a cólera potente
De Aquiles, e colheu as lágrimas troianas
Para glória maior da sua amada gente,
E com ele Virgílio e as graças virgilianas;
Juvenal que marcou com ferro em brasa o ombro
Dos tiranos, e o velho e grave florentino,
Que mergulha no abismo, e caminha no assombro,
Baixa humano ao inferno e regressa divino;
Logo após Calderón, e logo após Cervantes;
Voltaire, que mofava, e Rabelais que ria;
E, para coroar esses nomes vibrantes,
Shakespeare, que resume a universal poesia.

E agora que ele aí vai, galgando a eterna morte,
Pega a História da pena e na página forte,
Para continuar a série interrompida,
Escreve o nome dele, e dá-lhe a eterna vida.