Machado de Assis

Maria Velho da Costa, escritora portuguesa, é reponsável por alguns dos romances mais importantes do atual panorama literário em Portugal. É autora, entre outras obras, de O Lugar Comum, Maina Mendes, Novas Cartas Portuguesas (com Maria Tereza Horta e Maria Isabel Barreno), Casas Pardas, Lucialima, Missa in Albis, Irene ou o Contrato Social. Ganhadora de vários prêmios literários, foi agraciada com o "Prêmio Luís de Camões" de 2002.

Confira os áudios clicando nos títulos abaixo:


Depoimento de Maria Velho da Costa
Espaço Machado de Assis

06/08/2002

Talvez eu deva contar a história de como surgiu a peça de teatro Madame, que tem como base e tema duas personagens principais da literatura já clássica portuguesa e brasileira, e também incluídos textos de Eça de Queirós e Machado de Assis. Essas duas personagens são Capitu, de Dom Casmurro, de Machado de Assis, e Maria Eduarda, de Os Maias.

Tudo isso começou porque surgiu a Ricardo Pais - que depois foi diretor do Teatro Nacional S. João, que é o teatro do Norte mais importante de Portugal, da estatura de teatro nacional -, surgiu a idéia de pedir a um autor português, neste caso eu, com quem ele já tinha trabalhado, um texto, uma peça apenas para duas atrizes, uma portuguesa e outra brasileira.

 

A idéia

E, conversa puxa conversa, surgiu a idéia a mim, porque eu tinha pensado em trabalhar, mas em ficção, a figura de Maria Eduarda, já uns anos depois, já idosa. Para quem não estiver muito presente, Maria Eduarda é a relação incestuosa que é trabalhada por Eça, uma relação incestuosa entre Carlos da Maia e sua irmã Maria Eduarda. Mas o texto é certamente conhecido por toda a gente da literatura, tanto no Brasil como em Portugal, para estar a fazer a sinopse.

Então, eu disse: - Olhe, uma das personagens podia ser a Maria Eduarda, mas a essa altura, como é para as duas atrizes, tem que se buscar uma personagem que seja igualmente forte na tradição brasileira. Então pensei: - Só pode ser Capitu. Agora, deixa ver se as datas coincidem. Eu já nem me lembro das datas exatas, mas as datas mais ou menos coincidiam. Eu não me lembro de todos os pormenores do projeto. Mas então a minha idéia era pô-las - o que era possível em termos de datas, dentre as contas que fiz - já idosas e em Paris. E eu lembro que Ricardo disse: - Mas, espere aí, em Paris, só se for de visita, porque Capitu é posta pelo marido exilada na Suíça. Eu disse: - Pois é, mas nessa altura já existe Ezequielzinho, o filho adulto, tanto que ele visita o pai, com os estudos de Arqueologia já feitos. Ora, Arqueologia na Suíça, na época, não sei se era possível, mas era muito mais provável que fosse na Sorbonne, em Paris, tanto mais sendo a família rica. Tinham dinheiro.

Quanto à Maria Eduarda, tudo que sei da Maria Eduarda no fim de Os Maias, é que ela, uma vez sabendo que era irmã do amante, mas que é também filha legítima dos Maias, vai para Paris, mas vai para Paris com a herança adquirida. Portanto, tudo aquilo que se podia saber dessas mulheres com os seus 60 anos, a serem interpretadas por atrizes até um pouco mais velhas, que eram Eva Wilma, do Brasil, e Eunice Munhoz, tudo aquilo que se podia saber é que elas podiam perfeitamente ter chegado à terceira idade ricas, com, no entanto, hábitos e origens muito diferentes.

Capitu, no livro, é uma rapariga inteligente, mas uma pequena burguesa ambiciosa, mas delicada e sedutora, "oblíqua e dissimulada", como diz Machado de Assis. E as minhas dúvidas começaram com Maria Eduarda. Quando eu me pus a estudar o texto pormenorizadamente, apercebi-me que a mesma ambigüidade - não a mesma, não tão carregada como existe em Dom Casmurro, na personagem da Capitu - , essa mesma ambigüidade existe na Maria Eduarda.

E a cada vez que eu ia pensando coisas, o Ricardo Pais ficava horrorizado, porque uma coisa eu percebia: era quase impossível que Maria Eduarda não soubesse quem era quando chega a Portugal, quase impossível a julgar pelo texto. Quando a mãe foge com ela, deixando o bebê - que é o irmão - em Portugal, ela já tem quatro ou cinco anos. A mãe leva, de Portugal, criadas. Ora, toda a gente sabe que naquele tipo de família, naquele tipo de ambiente, vão com um príncipe italiano, mas levam criadas portuguesas. As primeiras pessoas a contar origens, perversidades e disparates são exatamente a criadagem.

 

O encontro

Ora bem, então, é a partir daí que avanço para o encontro: pelo que consegui saber e refletir sobre a personalidade das duas, modo de ser, cada uma com o seu segredo, mas qualquer das duas numa situação econômica desafogada, ricas. Eu faço-as encontrarem, o primeiro encontro delas é em Deauville, numa estância muito elegante à época, as duas na sala de jantar de um hotel, em que o palco, aquilo que se chama em teatro a quarta parede, seria o mar. Portanto, elas estão em mesas separadas: Maria Eduarda elegantíssima, pomposíssima, com um grande chapéu; a outra também, bem-vestida, menos grande burguesa que a Maria Eduarda. E a primeira frase da Capitu, num francês assim-assim (mas é francês, fala francês) é: Que c'est triste Deauville, quand il pleut comme ceci! - e a outra diz (a outra, que fala francês, que foi educada em França), diz com uma certa arrogância: - Ah, eu não sei, madame (mas diz em francês). Com o meu falecido marido, íamos sempre para... viajávamos sempre... - as duas muito pomposas. Mas depois, diz: - O certo, quando era pequena, é que se então os verões em Sintra, no palacete dos meus avós.

Nunca existiu tal palacete. Mas isso é uma das coisas que me interessou: qualquer uma das duas é extremamente mentirosa; até entrar em cumplicidade uma com a outra, são as duas mentirosas.

Aí Capitu dá um salto: - Portuguesa, é mesmo! Aqui as duas sentadas em mesas separadas, e afinal, falando a mesma língua, ou quasimente!

A partir daí, comecei a tentar trabalhar a relação entre as duas. Para trabalhar melhor a relação entre as duas, surgiu-nos - ainda não na fase de estar a trabalhar com as duas atrizes, ainda com Ricardo Pais -, surgiu a idéia, porque havia coisas. Na medida em que qualquer duas ainda não tem confiança uma na outra, ainda não são propriamente amigas, são cúmplices, e depois em Paris, descobrem que vivem ambas em Paris, e com uma relativa proximidade, aí então, sim, passam a tomar chá, saem ocasionalmente juntas. Era necessário alguém revelar alguma coisa do passado destas duas, que elas só revelam quando estão a sós, consigo próprias.

 

As criadas

À medida que a peça vai correndo - é difícil estar a falar de um texto, porque as pessoas aqui não viram o espetáculo, mas enfim - o que me pareceu necessário? Ter uma espécie de alter ego, que seria interpretado pelas duas, porque aquilo que se queria era que na peça fossem sempre as mesmas atrizes. Então, a atriz brasileira seria também a sua criada, escrava nordestina, e a atriz portuguesa seria uma antiga criada da casa, que sabia todos os segredos, portanto, que assiste à relação incestuosa, mas que é do Norte de Portugal, e que, portanto, fala com uma pronúncia mais cerrada do que a comum.

Ora bem, isso acabou por ser o eixo cômico fundamental de toda a peça, que é: as duas entendem-se na cumplicidade de domésticas, de servas, de criadas, porém uma é mais agressiva, a portuguesa é mais agressiva que a brasileira, a brasileira é um pouco como a patroa, mais dissimulada; as duas se entendem e são as duas que vão contar, de certa forma, o que se passou.

 

O trabalho a quatro

Ora, é aí que entra o trabalho a quatro, no projeto. Fomos para o Porto, Eva Wilma viajou do Brasil, e estivemos durante quase uma semana os quatro, num hotel no Porto, em huis-clos.

Então surgiu a contribuição extraordinária do Ricardo Pais, porque vinha realmente de cenografia: se era ou não era possível, em cena, fazê-las passar de patroas a criadas, de criadas a patroas; e havia elementos que entram também no texto, que são as duas atrizes a falarem do que estão a fazer. Isso entra também na peça. De repente, elas saem da personagem e dizem: - Como isto é cansativo, você já viu? Agora, quando é que temos uma pausa? - e depois entram outra vez a falar: - Vamos lá, continue, vá lá, agora você é Capitu outra vez.

Portanto, há uma entrada assim dentro do teatro e nelas próprias há um desdobramento entre patroas, senhoras (senhoras um pouco duvidosas) e as criadas. É aí que entra o talento do Ricardo, com as soluções cenográficas que começaram a influir também no texto, e o contributo de Eva Wilma e de Eunice, na medida em que Eva Wilma, por razões que têm a ver com a sua profissão e com seu grande talento, tem uma imensa capacidade de mímica do dialeto, e portanto, deu uma grande veracidade ao modo de falar da escrava; e Eunice, por sua vez, que também tem muita experiência de palco, entraram as duas em um jogo, que era simultaneamente cumplicidade e competição, maravilhoso, tanto enquanto criadas como enquanto patroas.

 

O espetáculo

Sem entrar muito mais na elaboração, de fato foi um trabalho maravilhoso a quatro e posteriormente a cinco, com o extraordinário cenógrafo que se chama Antônio Lagarto, e que as vestiu suntuosamente, embora muito simples, e que fez uma estrutura de palco muito pouco carregada - com aqueles imensos espelhos um pouco distorcidos, um pouco sublinhando aquele narcisismo distorcido das duas personagens.

Mas eu acho que o mais importante é saber que um projeto que tem como tema dois clássicos da literatura (bem sei que tem dois grandes nomes do teatro português e brasileiro), este projeto foi um sucesso inconcebível, quer no Porto, quer em Lisboa.

Durante cerca de uma semana que esteve no Porto, cerca de uma semana que esteve em Lisboa, as pessoas faziam fila ao longo de vários prédios para ter acesso à bilheteira. Isto não sendo teatro de revista, como nós chamamos, não sendo vaudeville, é um dos espetáculos de maior sucesso, "espetáculo" com um tema literário sério, é um dos maiores sucessos destes últimos vinte/trinta anos em Portugal, o que significa que as pessoas não querem só coisas fáceis, não é verdade?

Quando uma coisa, que não é tão fácil assim, tem esse conjunto de ingredientes, pois não estou dizendo que seja só o trabalho sobre o texto, mas esse conjunto de ingredientes, as pessoas são mesmo capazes de ouvir Machado, são mesmo capazes de ouvir Eça, porque as atrizes, por vezes, dizem, durante a peça excertos dos dois clássicos. E até, talvez seja otimismo demasiado, talvez isto leve as pessoas à curiosidade do texto original, quer de Dom Casmurro, de Machado de Assis, quer de Os Maias, de Eça de Queirós.

Muito obrigada.