Machado de Assis

Domício Proença Filho é Doutor em Letras, Livre-Docente em Literatura Brasileira, Professor Titular dessa disciplina na Universidade Federal Fluminense, aposentado após 38 anos de magistério em todos os níveis e graus de ensino. É crítico literário, poeta, ficcionista, promotor cultural e administrador educacional. Renomado estudioso da obra de Machado de Assis, tem 38 livros publicados, entre eles: Os Melhores Contos de Machado de Assis, (org.), 15 ed. São Paulo: Global, 2001; Memórias Póstumas de Capitu, romance, 2 ed., Rio de Janeiro: Atrium, 1999; Estilos de Época na Literatura, 15 ed., São Paulo: Ática, 1995; A Linguagem Literária, 7. ed. São Paulo: Ática; Oratório dos Inconfidentes, Rio de Janeiro: Léo Christiano Ed., 1989, 2 ed. esg. É autor do capítulo "Capitu, a moça dos olhos de água", publicado em Personae (org. de Lourenço Dantas Mota e Benjamin Abdala Júnior, São Paulo, ed. SENAC, SP, 2001).

Confira os áudios clicando nos títulos abaixo:

 

Depoimento de Domício Proença Filho
Espaço Machado de Assis

31/01/2002

Começo por agradecer a distinção do convite para falar neste Espaço Machado de Assis. Aqui estive, durante algum tempo, a convite da Presidência desta Academia Brasileira de Letras, para o grato e honroso prazer de contribuir para o traçado e a construção do sítio internético dedicado ao criador de Dom Casmurro. Saiu o consultor. Fala aqui e agora, com prazer e emoção, um admirador e estudioso da obra do Bruxo do Cosme Velho. Gratíssimo.


Importância de Machado de Assis

Por que a obra de Machado de Assis é importante?

O texto literário realmente representativo assume uma perspectiva radical diante da condição humana. A partir de uma linguagem eminentemente multissignificativa, assegura sua permanência e sua atualidade. Ao dizer de um tempo, diz de todos os tempos: integra, unitariamente, presente, passado e futuro.

Assim, cada novo leitor, armado do seu repertório cultural, pode ser capaz de identificar, na dimensão escondida na obra de literatura emoções coincidentes com as que povoam o âmago do seu universo psicológico.

Isso se torna possível quando a representação simbólica que se carateriza na arte literária ultrapassa os limites do meramente individual, histórico ou conjuntural e mobiliza determinados componentes da psique humana que se mantêm imunes à ferrugem de Cronos, ao processo modificador peculiar ao percurso histórico - cultural da humanidade.

A ficção de Machado de Assis está nesse caso. Sua obra garante permanência e atualidade, na medida em que, em textos profundamente multissignificativos, lança, a partir de seu testemunho sobre o ser humano e a realidade do seu tempo, um olhar armado sobre questões relacionadas com o ser de todas as épocas. Nessa direção, trabalha uma temática que envolve, entre outros destaques, o amor, o ciúme, a morte, a afirmação pessoal, o jogo da verdade e da mentira, a cobiça, a vaidade, a relação entre o ser e o parecer, as oscilações entre o bem o e mal, o conflito entre o absoluto e o relativo. É ler seus romances e seus contos.


Considerações sobre o romance

O Bruxo do Cosme Velho, como o chamou Carlos Drummond de Andrade, deixou publicados nove romances. A maioria revela o traçado da pena da galhofa e as cores da tinta da melancolia. Seus personagens movem - se nem espaços urbanos do Brasil. Notadamente do Rio de Janeiro. Mas essa visão e essa localização em nada diminuem o espaço da reflexão que suas histórias lançam diante dos leitores. Pelo contrário. Sua percuciente visão de mundo aprofunda o nosso mergulho diante de nós mesmos.

Tomemos três exemplos. A começar por Dom Casmurro. Aspectualmente, a trama é simples como o percurso dos personagens no seu cotidiano. Uma história de amor, uma família de classe média, outra de classe alta, no Rio de Janeiro do século passado, sua ética, seus valores. No mesmo nível, um duvidoso adultério, deflagrador de desequilíbrio familiar e convertido em núcleo da ação desenvolvida. Resumido a tal dimensionamento o romance teria pouco a revelar. Mas quando o lemos como uma revisão existencial do personagem -narrador, buscando " atar as duas pontas da vida e restaurar na velhice a adolescência" como ele mesmo nos informa na narrativa, quando o entendemos como um estudo acurado do ciúme e do comportamento psicológico do ser humano, o romance alcança outra significação e representatividade. Nesse contar de vidas, o autor consegue , através da simulação do particular, atingir dimensões de universalidade: suas personagens ultrapassam os próprios limites individuais, para se converterem em metonímias do homem ocidental.

De percurso existencial também se fazem as Memórias póstumas de Brás Cubas. Agora a a irônica obsessão do narrador, também personagem, define bem a linha universalizante assumida e declarada. Sua idéia fixa , sabemos, é "nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto anti - hipocondriaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade" . Uma idéia que, ainda nas suas palavras, "trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; do outro lado, sede de nomeada. Digamos: amor da glória.

Nada mais humano. E carregado de burguesia.

Brás Cubas, sabemos os leitores, não consegue realizar o seu propósito, como não consegue, como tantas pessoas, realizar-se a si mesmo. Daí a revisão que, morto, faz de sua vida. Acentuada pela amarga corrosão. Ele traz a marca do pessimismo trágico. Mas não nos angustia tanto o seu fracasso: Machado amortece a dimensão trágica com a dimensão do humor. A vida continua, apesar de absurda. Ao fundo, ainda uma vez, o adultério, agora naturalmente assumido.

Quincas Borba, mais rico de substância humana do que o cínico Brás Cubas, centraliza-se muito mais no fundo irracional que ilustra a precariedade e a incerteza do ser humano do que no jogo das causas que movem as personagens. Rubião é um ingênuo vencido pela fatalidade. Um homem que perde. Perde a fortuna, perde o amor, perde a razão, na relatividade dilaceradora da existência incompreensível que marca a visão - denúncia de Machado de Assis. Uma tragédia a mais, amenizada de novo pelo riso acionado pelo tratamento parodístico carnavalizador e satirizador do Postivismo de Augusto Comte. Afinal "ao vencido, ódio e compaixão; ao vencedor, as batatas." E "bolha não tem opinião". E lá está ainda o adultério, desta vez apenas insinuado.

Relativismo e ambigüidade de comportamento são também as tônicas de Esaú e Jacó, um estudo de caracteres em oposição, apresentado sob a forma de um divertimento lúdico do autor que, apoiado no próprio fazer do livro, integra espaços do mito, do histórico - cultural e do imaginário, com predominância deste último.

A tônica de tudo isso é a relatividade do comportamento humano.


E o conto?

Essa preocupação também esta presente nos contos do mestre. Nestes, o que importa é ainda a atitude e o sentir dos personagens, mais do que as ações, a trama, o espaço. Com atenção sempre ao modo de fazer do texto, à técnica de construção caracterizada em freqüentes exercícios de metalinguagem.

E tudo se dá num processo de elaboração gradativa que, como já ressaltou Alfredo Bosi, vai da "obsessão da mentira", dominante nos Contos Fluminenses, à configuração da " força de uma necessidade objetiva que prende a alma frouxa e veleitária de cada homem ao corpo uno, sólido e manifesto das formas constituídas." Palavras de Bosi.

Associo-me ao pensamento dele, para dizer que entendo que, ao satirizar o comportamento comprometido dos personagens com as instituições, a sua subserviência ao parecer, como garantia do sobreviver, ao caracterizar o reconhecimento à necessidade do bem material como forma de estar bem no mundo, Machado não referenda: denuncia, embora não diretamente. É atitude que mantém diante de outras transgressões ou escoriações que atingem o socialmente estabelecido ou esperado pela moral convencional.


O lugar da mulher

Nos contos e nos romances, destaca -se a figura feminina. Presença forte. Mas impiedosamente retratada, com algumas exceções. Embora as privilegie, com a inteligência e a cultura que lhes atribui, com o destaque no jogo das ações, em geral sua pena acentua traços de mau caráter, de falta de firmeza, de dubiedade, frivolidade, interesse. Capitu é exceção: mulher-cabeça, de marcada independência de pensamento e atitudes, com os pés no chão da objetividade. Mas se lida na palavra no narrador- personagem, não escapa: no fundo, no fundo, se acreditamos no seu marido Bento, é uma jovem tão casadoura, interesseira e volúvel como Virgília, de Memórias póstumas, e Sofia de Quincas Borba. E quando casada, perde a sobranceria diante dele.

Mesmo assim, Capitu representa a insubordinação ao domínio machista cultivado pela rígida sociedade do seu tempo. Seu posicionamento revela a ruptura com os valores internalizados nas mulheres suas contemporâneas e que só muito mais tarde começarão a ser substituídos.


As memórias de Capitu

Confesso-me suspeito para falar de Capitu. Conheci a moça dos olhos d´água nos meus longínquos quinze anos. E como todo adolescente do meu tempo, me apaixonei por ela. E cultivei um sentimento de pena do dilacerado Bentinho e de raiva , quando ele virou o Dr. Bento Santiago e contou a história deles do jeito que contou. Na verdade, com uma única intenção: provar que Capitu era mau caráter desde criancinha: a Capitu criança já estava na Capitu adulta, como o fruto dentro da casca. Li e reli o romance dezenas de vezes, sempre achando que alguém algum dia, deveria dar a ela a voz que o narrador não lhe concedeu. Foi assim que, ao escrever um ensaio crítico sobre o romance, veio , de repente, o impulso de assumir esse encargo. Machado, ele mesmo, me ditou os rumos. E eu assumi o risco de produzir Capitu - memórias póstumas. Ali ela conta quase tudo e demonstra que o fruto dentro da casca era ele, o Dr. Bento Santiago. Na verdade, o texto centraliza -se no enigma Bentinho, e deixa em aberto, como era necessário, o enigma Capitu. O romance , lançado em 1999, teve duas edições, felizmente esgotadas. O que comprova, ainda uma vez, a força de Machado de Assis.

E uma das razões talvez seja porque em sua obra ele trata de gente, gente em crise, cujas angústias existenciais se atenuam diante do distanciamento do narrador a assegurar, através do humor, um permanente amortecimento da tensão. E tudo conduzido por um mestre na arte da linguagem.


O trabalho na linguagem

Veja-se, a título de exemplo: em Dom Casmurro e nas Memórias póstumas de Brás Cubas, a narração é conduzida por personagens, que contam a sua própria história e a comentam. Por trás de ambos, está o escritor Machado de Assis que, na verdade, conduz a narrativa como um todo. Temos, no caso, uma ação integrada a uma narração marcada de reflexão e a uma narrativa. Esses três espaços articulam-se magistralmente no romance machadiano. E permitem perceber no espaço escondido, ali, entre a narrativa e a narração, na relação entre esta e a ação, a presença da denúncia de mazelas humanas e sociais. Basta ver, como exemplo, a história contada pelo Dr. Bento Santiago. A narrativa permite a depreensão não de um, mas de vários temas: o duvidoso adultério, o ciúme, a dúvida, o ressentimento, a fratura do resgate, a fatalidade da condição infeliz do ser humano, a ambigüidade do fazer do romance, a dissimulação do erotismo feminino, o desvendamento da prática jurídica e por aí vai.
Acrescente-se que o autor se vale, na construção do texto, da utilização do narrador em primeira pessoa, participante, do narrador em terceira pessoa, onisciente, da técnica da fragmentação, do jogo de tempo cronológico e psicológico, do freqüente exercício da metalinguagem, da narração em ar de conversa, privilegiado o uso formal do idioma, com um excepcional jogo de imagens, tudo isso pontuado pelo humor de marcado efeito irônico e parodístico.


E o poeta?

Durante muitos anos identificada com as tendências dominantes no tempo em que escreveu, a poesia de Machado de Assis vem sendo relida recentemente em outras direções reavaliadoras., que buscam considerá-la à luz da integração no espaço totalizante de sua obra. São exemplos a tese de Cláudio Murilo Leal, e o primoroso ensaio de Mário Chamie, ambos poetas, críticos e professores universitários. Começa a fazer-se justiça crítica ao autor de sonetos como "A Carolina" e " Círculo Vicioso" e a textos como " A mosca azul".


O romance machadiano no processo literário brasileiro

Prefiro aproveitar o tempo de que ainda disponho para algumas considerações sobre a ficção machadiana no processo literário brasileiro.

Entendo que sua obra ficcional apresenta tal singularidade, que continua a desafiar e a dividir os especialistas. Até porque ultrapassa os modismos e os limites das rotulações. E seus romances não permitem uma classificação em bloco. O texto machadiano é desvinculado de compromisso explícito com as tendências literárias que integram o complexo estilístico pós-romântico.

O relativismo, marca relevante de suas histórias e personagens, o afasta desde logo das dicotomias radicais dos textos românticos e da perspectiva determinista de realistas e naturalistas. Ele aproveita elementos desses estilos epocais, com se vale dos clássicos e também de procedimentos impressionistas. Um impressionismo à Machado de Assis.

Sua obra ficcional , por outro lado, não é um espelho explícito do Brasil em que vive; é fruto do que ele pensa sobre a realidade e não do que ele observa nessa realidade.

Em relação ao processo de construção, seus personagens não são, como tantos outros de obras de seu tempo, marcados pela distorção ou pela condição marginal. Bentinho e Capitu, por exemplo, estão longe de ser personagens rigorosamente em luta contra as forças do determinismo atávico, biológico ou social. Mesmo o retrato psicológico que os configura é complexo. Bento Santiago é um homem sofrido, apesar de exibir um aparência de realização no fim do seu "livro". Sua narração é reveladora de sua ruína interna, do fracasso do seu projeto de vida. A pena de Machado mostra esse estraçalhamento por dentro. Predomina a perspectiva filosófica: Machado, vale dizer, os retrata como seres humanos comandados inexoravelmente pelo Destino, o grande contra-regra.

E mais: se, por um lado, dá continuidade a certos procedimentos da tradição narrativa brasileira, por outro, sobretudo nos romances da chamada maturidade, seu texto converte - se numa ruptura com essa mesma tradição e insere-se na ficção moderna.


Machado e a ficção moderna

O texto de Machado, de fato, é o primeiro a configurar, na literatura brasileira, marcas que delineiam a chamada ficção moderna.

Pelo menos, é quem assume o centramento na hipertrofia da problematização da existência. Os contos de Papéis avulsos e os poemas de Ocidentais já deixam claro esse aspecto. Os romances da maturidade, nesse sentido, inscrevem-se precursores na estética peculiar à literatura moderna, independentemente da aproximação com este ou aquele estilo epocal.

A arte moderna privilegia a atividade lúdica, o jogo. Machado, por exemplo, joga com o conteúdo, por intermédio da paródia, e, conseqüentemente, do humor, através do qual fratura-se a visão tragicizante da vida. E joga com a forma, acrescentando novos procedimentos aos modelos realistas da construção narrativa.

Em sua obra também evidencia-se a agudização do conflito entre arte e civilização, tão presente na vocação surrealista da modernidade. Nessa acepção, o surrealismo é um atitude que superpõe a realidade pensada à realidade vivida. Instaura-se a autonomia do imaginário. Sem atingir os níveis mais profundos dessa revolução, a prosa machadiana revela-se , sobre esse aspecto, também precursora, ao buscar conscientemente caracterizar a verdade sob o manto diáfano da fantasia. Surrealista é a loucura de Quinca Borba, a condição defunta e o delírio de Brás Cubas, por exemplo.

Diálogos intertextuais, interação entre diversas artes, reflexões críticas do narrador sobre seu próprio discurso, valorização da subjetividade dos personagens, em busca de significações universais entre outros traços, completam a vinculação


Permanência e atualidade

Por tudo isso, a obra de Machado de Assis permanece e segue mobilizando leitores, críticos e admiradores.

No contar de vidas que nela se configura, o autor consegue, através da simulação do particular, feita de imaginário, atingir dimensões de universalidade. As figuras que criou ultrapassam os limites individualizantes, para se converterem em metonímias do ser humano brasileiro e ocidental. E, como situação ficcional, alia essas dimensões ao prazer da leitura. E tudo isso se faz numa obra de arte de linguagem altamente polissêmica. Na palavra do autor: "Sem descuido, nem artifício: arte."


Domício Proença Filho