Machado de Assis

 

Josué Montello (J. de Sousa M.), jornalista, professor, romancista, cronista, ensaísta, historiador, orador, teatrólogo e memorialista, nasceu em São Luís, MA, em 21 de agosto de 1917. Foi eleito para a Cadeira n. 29 da Academia Brasileira de Letras em 4 de novembro de 1954.
Para a Biografia e Bibliografia de Josué Montello, acesse o endereço www.academia.org.br.

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Depoimento do Acadêmico Josué Montello
Espaço Machado de Assis

(25/09/2001)

JOSUÉ MONTELLO:
Na minha formação literária, tenho vários autores que são aqueles que me ajudaram a eu próprio me encontrar. Machado de Assis é um deles. Desde o começo de minha vida, tive a orientação natural e instintiva para os grandes autores do Brasil, graças a um mestre de província, grande amigo meu, chamado professor Antônio Lopes da Cunha.

Antônio Lopes tinha sido amigo de Graça Aranha, tinha sido discípulo de Tobias Barreto no Recife, e era um homem atualizadíssimo em matéria intelectual. Foi o homem que preparou a edição dos grandes mestres maranhenses, o homem que atualizou a História do Maranhão, com toda uma documentação primorosa, e que, de certo modo, elucidava certos capítulos esquecidos ou ignorados, mas que ele trazia na ponta da língua.

Antônio Lopes foi quem me orientou para as grandes figuras intelectuais, umas em língua portuguesa e outras em língua espanhola e em língua francesa, que desde cedo eu consegui dominar. Isso é que me permitiu abrir um horizonte para, intelectualmente, me encontrar naqueles mestres com os quais eu podia estabelecer uma concordância natural.

Ora, Machado de Assis se caracterizava por um aspecto curiosíssimo e que nunca foi convenientemente estudado: era o fato de que ele, quando jovem, se abastecia de autores - no Gabinete Português de Leitura - que lhe emprestava os livros e, emprestados esses livros, ele não se limitava unicamente a lê-los. Tinha o cuidado de distinguir no texto lido aqueles trechos que lhe traziam ensinamentos.

Nós devemos a Mário de Alencar, grande amigo de Machado de Assis, o fato de que Mário de Alencar, logo que morreu Machado de Assis, reuniu todos esses papéis que traziam a letra do Machado e eram as transcrições dos textos exemplares dos mestres portugueses. Foi isto que me permitiu encontrar um outro Machado de Assis, aprendendo meticulosamente a língua portuguesa.

Mário de Alencar não se limitou a recolher esses papéis. Publicou-os na Revista da Academia Brasileira, onde eles estão, mostrando a cada um de nós que, para chegar-se à posição de Machado de Assis, essa posição tem que ser protegida, resguardada por uma aprendizagem consciente.

Por conseguinte, quando dizemos: - Ah, Machado de Assis foi um autodidata, aprendeu ... - Aprendeu as coisas meticulosamente, sabendo onde encontrá-las e transferindo para os seus papéis particulares as noções fundamentais da língua portuguesa muito bem-escrita, que é o que vai acontecer com ele.

Portanto, este é um segredo machadiano que me parece importante, porque traz consigo uma lição. Ele não era um homem improvisado. Era um homem que, desde cedo, teve a consciência de que, para chegar ao ponto a que chegou é preciso ter o gosto da aprendizagem.

 

A importância de Machado

A importância de Machado - é interessante a gente ajuizar fazendo o confronto com os valores do tempo dele. Ele se distingue por duas coisas fundamentais: primeiro, a sua singularidade; é um estilo que é dele, Machado. E em segundo lugar, além desta singularidade, há aquela correção e a clareza, que são fundamentais.

Certa vez, um mestre meu, Lourenço Filho, resolveu fazer o levantamento do vocabulário do Dom Casmurro e teve essa surpresa: não passava de 2 mil palavras. Com essas 2 mil palavras, Machado de Assis conseguira dizer tudo, só não disse - e isto é uma coisa que ficou para a nossa imaginação - o que fez a Capitu.

Com a Carolina, há uma coisa curiosa. O Massa fez um dia um trabalho sobre a Carolina. Como vocês sabem, ela foi a mulher que deu estabilidade, serenidade, trouxe para o Machado de Assis aquele tipo de comportamento austero que se ajustava ao Machado de Assis. Mas houve uma fase em que a Carolina não era a Carolina do Machado.

Dona de si mesma, tinha os seus namorados, e desses namoros ficaram várias denúncias ou pelo menos vários textos de namorados dela, de pessoas com as quais ela conviveu. E o Massa, francês, que fez um levantamento da vida do Machado e dela, teve a imprudência de contar esses pequenos episódios. Mas ainda bem que, quando se lê o Machado de Assis, sobretudo o Machado de Assis do Dom Casmurro, chega-se a um ponto em que tudo aquilo que ocorreu com a personagem podia ter acontecido, imaginariamente, com a Carolina, porque o nosso Machado de Assis, de quem não se conhece outros romances a não ser aquele que viveu com a Carolina, teve sempre um comportamento austero, que o torna - e as mulheres não sabem disso - um grande exemplo para as mulheres ciumentas.

 

Presidente da ABL

Quem vê a vida de Machado de Assis tem a noção perfeita de que ele se preparou, desde cedo, para a sua biografia. Ele não ficou circunscrito a ser o que era; teve também um comportamento que vai dar no Machado de Assis, nos vários Machados de Assis austeros que existem dentro dele.

Pois bem, este Machado de Assis curioso, competente, este Machado de Assis austero vai se refletir na Academia Brasileira, porque ele, desde cedo, foi uma pessoa que teve um comportamento rígido, do ponto de vista pessoal. Foi o homem que se preparou para ser escritor, dominando um vocabulário, escolhendo os seus mestres, porque a gente se surpreende com a variedade da obra de Machado de Assis, dentro de um vocabulário aparentemente pobre. Quer dizer, é um vocabulário sóbrio, não tem aquela riqueza camiliana e nem mesmo aquela contenção que a gente encontra no Eça de Queiroz. O que o caracteriza é o homem de uma sobriedade vocabular, que permite a ele, dentro das 2 mil palavras do Dom Casmurro, dizer tudo que pretendeu, tudo aquilo que estava na sua imaginação, e que nos dá realmente o genuíno Machado de Assis em quase toda a sua obra. Isto é que faz a grandeza do Machado.

Agora, é preciso que a gente considere que aquele homem era de uma família obscura - gostaria até de acentuar um episódio muito importante e que, geralmente, é posto nas biografias machadianas como uma informação marginal. Machado era filho, primeiro, de uma mulher negra - a mãe dele era negra, está escrito isso no depoimento guardado por um dos seus biógrafos. Essa documentação da mulher negra é curiosa porque, ao mesmo tempo, ele é filho de um homem que é um pintor de paredes, quer dizer, é um homem obscuro, mais claro que a mulher, e o interessante é o seguinte: quando ele escolhe o nome dele - o seu pai era Assis, a mãe é que era Machado - ele compôs o seu nome literário como Machado de Assis. Ele juntou a mãe e o pai, esplendidamente.

É preciso acentuar isto neste homem porque, por um lado, soube ser um grande escritor, mas, por outro lado, soube ser concomitantemente um homem de bem, um homem correto, um homem identificado com o seu país, um homem identificado com seus amigos. Não se lhe conhece uma só atitude que representasse um constrangimento, ou um episódio para ser corrigido ou comentado de uma maneira desagradável. Pelo contrário, tudo nele parece que foi preparado, ensaiado de tal modo, que se tem a impressão, ao conviver com a vida do Machado de Assis, de que ele foi preparado, desde a infância, para ser o que foi.

Há um episódio que gostaria de contar, pois é pitoresco na sua simplicidade. Um belo dia, um dos seus biógrafos encontrou Machado de Assis, que vinha do Morro do Livramento. Parou, abraçou o amigo e diz o Machado: - Você sabe de onde venho? - O amigo respondeu: - Não.- Eu venho do Morro do Livramento, porque tive notícia de que a casa onde nasci estava sendo destruída e trouxe de lá (meteu a mão no bolso) estas pedrinhas.

O fato de ele guardar aquelas pedrinhas indicava nele o homem identificado com a sua infância. Ele não era um ressentido. O ressentimento não passou por ele. Pelo contrário, ele teve sempre o comprazimento da vida bem-vivida.

 

Machado de Assis contista e poeta

No contista Machado você tem - o próprio Machado, quando você lê toda a obra dele e vai-se inteirando naquilo que constitui os vários caminhos percorridos por ele, você vê que ele tem uma evolução gradativa.

Certa vez, em um dos meus livros, acentuei o fato de que há uma novela do Camilo Castello Branco, cujo final está quase que inteiro - quase, veja-se bem - no fecho de uma novela de Machado de Assis. Isto me serviu para identificar, nessa concordância, o Machado de Assis que sabia recolher, nos valores correspondentes à sensibilidade dele, os seus mestres.

Então, o Camilo que hoje pouca gente lê, que pouca gente conhece, mas que é realmente um dos pilares, uma das figuras fundamentais da cultura de língua portuguesa, esse Camilo também proporcionou a Machado de Assis a oportunidade de encontrar o vocábulo, a frase, o ritmo que muitas vezes aparece na sua obra. Machado de Assis era um homem que não precisava de mais de 2 mil palavras para fazer um romance. Imaginem o que ocorreu com o contista, com o poeta.

O poeta tem que ser realmente valorizado. Eu me recordo de ter lido um mestre, que era o Alberto de Oliveira, que fez um primoroso estudo sobre o verso do Machado. Esse verso com o rigor da forma, a maneira com que as várias manifestações culturais da língua portuguesa aparecessem nos poemas de Machado de Assis. Ele não era uma pessoa que tivesse aproveitado o texto, a oportunidade de um texto, para fazer algo que não correspondesse à genialidade e à mestria dele. Ele soube ser o mestre e soube ser também a pessoa com a capacidade de selecionar as palavras fundamentais para exprimir seu pensamento, sem que essa expressão trouxesse em si uma riqueza excessiva. Pelo contrário, o que sempre ocorre é uma sobriedade vocabular, esplendidamente apresentada pelo nosso maior escritor.

 

Machado de Assis cronista

Assim como ele foi grande romancista, grande poeta, ele soube ser também o cronista. O que era a crônica naquele tempo? A crônica era um gênero em que você surpreendia os fatos, ocorridos aqui ou fora daqui, e transformava esses fatos num comentário.

Esse comentário machadiano permitiu-lhe apresentar a sua opinião, o seu ideário literário, o seu ideário político, porque, ao contrário do que se presume, ele não foi um omisso. Não foi um participante, mas ele estava em dia com o que se passava no mundo. Basta dizer que ele é o primeiro a escrever em língua portuguesa sobre o comunismo. Ele pega um episódio ocorrido na China e faz disso um pretexto para tecer o comentário. Isto mostra a atualização machadiana, e essa atualização é básica para a compreensão daquele homem, cujos mestres ninguém sabe quais foram.

Se você procura na relação biográfica de Machado de Assis com quem ele aprendeu, você não sabe. Ele era aquilo que se chama operário de si próprio. Foi ele que se moldou, foi ele que se preparou; ele é realmente um milagre, uma surpresa. Você vê que aquele homem, que tem um estilo que é dele, que não se confunde com os demais, numa hora em que todo mundo tinha a preocupação de recolher as lições francesas, ele vai e recorre às lições inglesas.

Isto lhe dá uma singularidade, que é também uma concordância com os valores que o levaram a Shakespeare, que o levaram aos mestres ingleses, e isso fez com que ele dominasse a língua. E ainda há mais uma coisa curiosa. Em 1939, por ocasião do centenário de Machado de Assis, houve uma exposição de papéis do Machado e ali estava o quê? O caderninho em que ele, já perto dos 70 anos, estava aprendendo alemão.

 

O carioca Machado de Assis

É preciso ver, dentro da geografia dos textos machadianos, que ele é sobretudo o escritor que tem a impregnação do seu berço. Onde ele nasceu, tudo que você quiser saber quanto à vida, ao tempo de Machado de Assis, está ali nos textos em que ele recolhe aquilo que viu, aquilo que viveu e transfere para os seus contos, para as suas crônicas, para os seus comentários, e ainda mais, para a sua correspondência.

Há uma carta dele para o Magalhães de Azeredo, em que ele conta o seguinte: - Aquele cajuí que tomávamos na rua do Ouvidor, na verdade, hoje se toma na Avenida Central. - Então, isso mostra o homem identificado realmente com as suas raízes. Quando ele manda um personagem para longe, ele deixa que vá sozinho. Assim foi o que aconteceu com a Capitu, foi o que aconteceu com outros personagens machadianos, mas ele é um homem que permaneceu no lugar onde nasceu. E ali encontrou não o pretexto, mas a oportunidade de ser realmente, além do grande Machado de Assis, o grande Machado de Assis do Rio de Janeiro.

 

O instinto de nacionalidade e o universalismo de Machado de Assis

A nacionalidade está na língua literária dele, nos personagens, nos motivos dos seus livros. Ele é um escritor genuinamente brasileiro e não apenas o brasileiro comum. Ele é o carioca, o fluminense, o homem tão identificado com a sua terra, que sonha em ligar Niterói com o Rio de Janeiro. A idéia dessa ligação é falada nos livros dele.

A gente tem surpresas curiosíssimas lendo Machado de Assis, porque vê que nada ficou omisso, nada escapou à sagacidade dele. Isto é que faz a sua grandeza.

Machado é um escritor que, embora geograficamente limitado à sua província, aos seus amigos, à sua cidade, é também um homem universal, porque o que ele reflete, o que ele pensa, é de tal ordem, que os acontecimentos que passavam pelo mundo encontravam sempre no comentário do cronista a expressão correspondente de um homem absolutamente atualizado. Isto é que faz o grande Machado de Assis.

Todas as vezes em que tenho saudade de mim mesmo, no sentido da emoção com que lia os primeiros livros, eu regresso ao meu Machado de Assis, e encontro não o mestre: deparo-me com uma espécie assim de amigo, que veio ao meu encontro, com quem tenho a alegria de conviver, porque sei que com ele estou sempre muito bem-acompanhado.