Machado de Assis



A Professora Dra. Daphne Patai é do Departamento de Espanhol e Português da Universidade de Massachussets - EUA, e autora entre outros, dos seguintes livros, dedicados à literatura brasileira:


  • Brazilian Women Speak: Contemporary Life Stories. New Brunswick, N. J. : Rutgers University Press, 1988. 398 pp.

  • Myth and Ideology in Contemporary Brazilian Fiction. Rutherford, N. J. : Fairleigh Dickinson University Press, 1983. 260 pp.

  • Machado de Assis in English: The Fate of a Master Writing in a "Minor" Language. University of Texas Press.

Confira os áudios clicando nos títulos abaixo:


Depoimento da professora Daphne Patai
Espaço Machado de Assis
(29/08/2001)

Descobri a literatura brasileira por um acaso. Vim ao Brasil pela primeira vez em 1968, e fiquei tão encantada com o país que, quando voltei para os Estados Unidos, um ano depois, me matriculei num programa de doutoramento em Literatura Brasileira na Universidade de Wisconsin, na cidade de Madison.

Como eu não tinha nenhum conhecimento do Brasil e só falava um português de rua, realmente, acho que meus professores tinham, àquela altura, algumas dúvidas a respeito do meu trabalho, mas consegui, enfim, fazer o doutoramento. Escrevi uma tese sobre a Literatura Brasileira Contemporânea e uma abordagem mítica e ideológica a uma série de romances brasileiros contemporâneos. Mas ainda durante o programa de doutoramento, me interessei muito por Machado de Assis.

Eu tinha um background em Literatura Comparada e acho que ficou evidente, para mim, desde a minha primeira leitura de Machado, que se tratava de um grande escritor, embora um escritor muito pouco conhecido fora do Brasil. Desde então, sempre me interessei pela obra de Machado e queria, de alguma maneira, chegar a escrever um livro sobre ele. Porém isso levou muitos anos, durante os quais fiz outro tipo de trabalho. Escrevi vários livros tratando do Brasil, de literatura e cultura brasileira, e outros temas como o feminismo e a situação cultural no mundo acadêmico dos Estados Unidos.

Faz mais ou menos seis anos, Richard Gran, que é professor de História, que se especializou na História do Brasil, me convidou para uma conferência sobre Machado de Assis na Universidade do Texas. E quando eu estava imaginando o que poderia apresentar como trabalho naquela conferência - naquela época, eu estava também estudando a tradução e a teoria da tradução - resolvi estudar as traduções de Machado para o inglês.

Isso evidentemente era um campo bastante rico, porque naquela altura já havia pelo menos duas traduções das obras principais de Machado, e pelo menos uma tradução de outras obras dele. Até agora, acho que todos os romances de Machado já foram traduzidos para o inglês, menos o primeiro, que é Ressurreição. É uma coisa muito interessante, aliás, porque, pelo menos na minha opinião como professora de Literatura Brasileira, Ressurreição tem muito a ver com a obra posterior de Machado. Então, me parece algo estranho que até agora ninguém quisesse traduzir aquele romance, que é o primeiro que Machado escreveu.

O trabalho que apresentei naquela conferência foi sobre as traduções de Machado para o inglês, e também sobre a recepção da obra de Machado no mundo de língua inglesa. Eu me restringi, em primeiro lugar, a estudar as traduções de Dom Casmurro. Naquela altura, havia duas traduções de Dom Casmurro por duas pessoas diferentes, e isso me deu uma base muito interessante para comparar as decisões que os tradutores tomaram quando eles tinham que enfrentar as dificuldades que um texto de Machado apresenta.

Essas dificuldades são famosas. Todo mundo que lê Machado entende por que ele é um escritor bastante difícil. Não é que ele use um vocabulário muito difícil, acho que não, mas a ironia e a sutileza com que ele escreve fazem com que qualquer tradução seja bastante difícil. É difícil, realmente, captar o tom e as nuances de Machado numa outra língua. E coisas que ele faz, com apenas uma ou duas palavras em português, dificilmente se traduzem para o inglês. Muitas vezes, o tradutor tem que não tanto traduzir, e sim explicar o que Machado está dizendo.

No trabalho que apresentei naquela conferência, abordei o problema da tradução de Machado a partir de duas direções: em primeiro lugar, essas dificuldades textuais de traduzir Machado, e também as decisões mais gerais que os tradutores tomaram. Uma tradutora de Machado muito famosa, a professora americana Helen Caldwell, que fez um trabalho muito interessante e importante sobre Machado de Assis nos anos 50. Ela não somente traduziu Dom Casmurro, mas também escreveu um livro com o título The Brazilian Old Fellow of Machado de Assis, apresentando uma explicação, uma análise do livro, que hoje, acho, é muito bem-aceito pelos críticos, mas naquela época era bastante inusitado.

Fiquei muito interessada nas escolhas que ela fez como tradutora, enfrentando os problemas textuais de Machado, e achei a tradução dela bastante boa. Felizmente, tive também uma outra tradução com a qual podia comparar o trabalho de Helen Caldwell. Isso foi a tradução mais recente que fez um inglês, Scott Buckley (é o nome dele). Quando comecei a estudar cuidadosamente a tradução dele de Dom Casmurro, que creio ter aparecido no começo da década de 90, verifiquei - com um choque - que ele tinha suprimido pelo menos dez capítulos de Dom Casmurro.

A coisa fascinante foi que os capítulos eram aqueles que faziam parte do que podemos chamar da "meta narrativa de Machado", quer dizer, os capítulos que comentavam principalmente sobre o processo de criação e de escrever, e os capítulos que desenvolviam metáforas em relação à escritura, por exemplo, o famoso soneto inacabado de Bento no romance. Nunca consegui saber por que ele quis suprimir mais de dez capítulos de Dom Casmurro. Quando tentei encontrá-lo, soube através de John Gledson que esse professor Scott Buckley tinha morrido. Então, não sei se estão em algum lugar os papéis, os manuscritos dele. Não posso imaginar o que realmente andava pela cabeça dele no momento em que fazia aquela tradução. Simplesmente, não entendo esse tipo de decisão, mas, apesar disso, ele queria fazer, evidentemente, uma tradução também fiel.

Então, estudei essas decisões do nível textual e achei que esses dois tradutores de Machado tinham muito respeito por Machado e se viam a si mesmos apenas como veículos para transmitir conhecimento de Machado a um público fora do Brasil. Achei isso uma tarefa muito importante, que valia muito a pena de ser feita.

O que aconteceu depois foi que fiquei muito interessada em saber como é que a teoria da tradução nos Estados Unidos e na Europa também estava se desenvolvendo naquela altura, quer dizer, na década de 80, e agora na década de 90, quando havia um novo campo que se chamava e se chama ainda Translation Studies, quer dizer, estudos de tradução. E o que percebi - isso foi a segunda parte da conferência que dei sobre Machado de Assis e a tradução da obra dele na Universidade do Texas, já lá vão alguns anos - foi que há um tipo de concorrência entre tradutores e escritores originais, e a tendência dessas figuras que se relacionam com os chamados Translation Studies, os estudos teóricos da tradução, é, a meu ver, cada vez mais apagar a figura do autor original e substituí-lo por si próprios, o que acho uma coisa muito idiota, de certo modo.

Eu entendo a frustração de tradutores, que acham que é só através deles, que o mundo inteiro chega a conhecer trabalhos importantes em língua estrangeira. É verdade que os tradutores, muitas vezes, não recebem o reconhecimento que devem receber, tudo isso é verdade. Entendo a frustração deles, mas insisto que há realmente uma diferença entre criar uma obra original e traduzi-la. Acho que essa distinção está sendo bastante apagada no momento, nos estudos de tradução nos Estados Unidos.

Então, a segunda parte do meu trabalho naquela conferência foi exatamente sobre os problemas teóricos. Essa conferência que fiz, depois, me levou à idéia de escrever, de finalmente poder escrever um livro sobre Machado, o que sempre quis fazer, principalmente porque queria poder dedicar-me muito aos livros dele, à ficção dele em geral. E achei que valeria a pena estudar todas as traduções de Machado de Assis para o inglês, e também a recepção dessas traduções no mundo inglês. É isso que agora estou fazendo num livro sobre Machado em inglês: tradução e recepção da obra dele, da obra de ficção dele, romance e conto.

É por isso que vim agora para o Rio, para visitar este lugar tão interessante. Já conhecia o website através de Maria Celeste, que me ajudou a utilizá-lo lá na minha casa nos Estados Unidos, e queria vir para ver exatamente o que é que vocês estavam fazendo aqui. Esse é o meu trabalho atual. Considero Machado um autor fascinante, sempre achei isso desde o primeiro momento em que o encontrei nos meus cursos de graduação na Universidade de Wisconsin, e isso não diminui com o tempo. Já faz quase trinta anos desde que tomei conhecimento de Machado de Assis pela primeira vez, e acho que fiquei ainda mais impressionada com o talento dele e a visão fascinante que ele tinha do mundo, a maneira com que ele conseguiu comunicar isso nas obras dele.

Acontece que agora já saiu toda uma nova série das traduções das obras principais de Machado, portanto, atualmente temos três traduções diferentes para comparar. Das obras mais importantes de Machado, por exemplo, Dom Casmurro já apareceu em três traduções diferentes em inglês; Brás Cubas também; e acho que Quincas Borba também agora apareceu em uma terceira tradução. Até lá há muita matéria para estudar esses problemas de tradução em relação a Machado.

Quanto à recepção de Machado no mundo de língua inglesa, isso é uma outra história muito fascinante. Que eu saiba, as primeiras traduções de Machado apareceram na década de 20, feitas por um professor americano da primeira geração do que nós chamamos brasilianistas, A. Goldsberg, que traduziu e escreveu vários livros em relação ao Brasil e à literatura brasileira, e que em 1924, publicou um livro de contos da América Latina e incluiu alguns contos de Machado.

O que é interessante é que nenhum dos críticos daquela época mencionou. Não parecem ter percebido a importância de Machado (pelo menos julgando), daqueles contos e da recepção que tinham naquela altura. Talvez por isso, talvez por outros motivos, demorou bastante para que outras traduções de Machado aparecessem em inglês. Enfim, acho que, começando com Helen Caldwell na década de 50, como falei, posteriormente, muitas obras de Machado (inclusive contos) foram traduzidas para o inglês.

É interessante assinalar que, apesar do reconhecimento que alguns acadêmicos, alguns escritores, tenham feito da importância de Machado como escritor, normalmente, ainda hoje em dia, acho que ele realmente passa quase desapercebido pelo público americano. Isso verifiquei visitando várias livrarias nos Estados Unidos, procurando traduções da obra de Machado, e comparando o aparecimento, ou a falta de aparecimento e de disponibilidade daquelas traduções em livrarias, em contraste com outros autores estrangeiros.

Por exemplo, na cidadezinha - que é uma cidade universitária onde eu trabalho em Massachusetts - havia numa livraria dezenas de traduções de Dostoievski, com dois ou três exemplares de cada uma. Para se comprar naquela livraria, lá não havia nenhuma tradução de Machado de Assis. Achei muito curioso que um autor do mesmo nível, quer dizer, um autor de primeira categoria no sentido universal, simplesmente não tivesse aquela visibilidade, mesmo numa cidade universitária, onde há muitos livros que, normalmente, não se encontram nas livrarias que a gente acha numa cidade desse tipo. E considerei isso quase inexplicável; quero estudar mais esse problema, para saber o que realmente impede que Machado seja reconhecido devidamente no exterior.

Nas edições mais modernas das mais recentes traduções da obra de Machado, aparecem até introduções de figuras muito importantes nos Estados Unidos. Por exemplo, Susan Sontag, que é uma figura intelectual, uma escritora de grande visibilidade nos Estados Unidos, escreveu uma introdução a uma nova tradução (acho que foi uma re-edição de uma velha tradução de Brás Cubas). Ela escreveu uma introdução apresentando Machado, e foi um artigo muito interessante que ela escreveu, inclusive publicando numa revista muito importante nos Estados Unidos, The New Yorker, que é uma revista de grande visibilidade. Apesar disso, quando telefonei para a Editora que publicou a tradução, e perguntei como estavam as vendas da tradução, a Editora me disse que não estavam vendendo quase nada.

Apesar da associação com uma figura importante no mundo intelectual americano, as traduções dos romances simplesmente não pegavam, não vingavam, como Machado diria. Não sei por quê. Isso pode ter sido, em parte, por causa da política, não sei, da política das Editoras, e a maneira em que eles tomam as decisões de fazer a propaganda, a publicidade em relação a certas publicações e não às outras, ou isso pode ter sido simplesmente o acaso, pois como um escritor brasileiro, Nelson Werneck Sodré, uma vez me escreveu: - Olhe, os países descobrem outros escritores, ou a cultura alheia, só quando precisarem. Antes disso, realmente não vale a pena se esforçar, porque não vai acontecer.

Então, pode ser que realmente seja isso, e que Machado ainda tem que surgir de alguma maneira no mundo inglês, para que o público tenha conhecimento dele. Espero que, com o meu trabalho sobre as traduções e esses problemas de recepção da obra de Machado, eu possa contribuir um pouco para isso. É isso que estou fazendo ou tentando fazer.

- (Pergunta incompreensível)

- (...) É difícil dizer. Acho que isso não é muito original. Gosto muito de Dom Casmurro, gosto muito de Brás Cubas. Aliás, gostei imensamente do filme que vi na semana passada sobre Brás Cubas; achei realmente brilhante, porque é um livro muito difícil de imaginar, visualmente. Acho que o diretor fez muito bem. Gosto muito de vários contos de Machado, há linhas (quando ensino, o que faço freqüentemente, em inglês e em português, utilizando os livros de Machado) nele que me fazem quase chorar diante de meus alunos. Por exemplo, a última linha em Brás Cubas: "não transmitir a nenhuma criatura o legado de nossa miséria", é uma linha que, vocês podem ver, sempre me toca muito.

Não sei o que Machado tem, mas parece que ele não se esgota. Isso é que é tão impressionante: a gente pode ler e reler, e sempre encontrar coisas novas e fascinantes nele. Creio que o que mais me toca nele é exatamente essa combinação de, não exatamente cinismo, mas eu diria, mais de um olhar realista, um olhar que realmente enfrenta as coisas difíceis da vida, e também a compaixão dele. Eu não o acho um escritor cínico; acho-o um escritor que tem uma compaixão imensa, que se transmite facilmente através da obra dele. Aliás, eu diria, não apenas com os personagens masculinos, mas também, e talvez até principalmente, com as personagens femininas.

Nesse sentido, ele também é um escritor excepcional. Acho que só conheço um outro escritor brasileiro que me parece chegar a ter esse entendimento da figura feminina, talvez surpreendentemente a meu ver, que é Graciliano Ramos. Evidentemente, ele é muito diferente de Machado, e acho que Machado continua sendo o meu autor preferido, e é o padrão com que se comparam todos os outros autores.

Machado de Assis deve realmente ter uma reputação universal, internacional, acho que ele realmente merece isso, mas ainda não aconteceu, não sabemos exatamente por quê, talvez seja por ele ser realmente um autor difícil. Há uma espécie de contrariedade na ótica dele em relação à vida.

Sei que meus alunos, especialmente os de graduação, e não de pós-graduação, têm muita dificuldade com ele, em entendê-lo, e talvez isso seja geral. Então, ele ainda aguarda a recepção que realmente merece. Espero que isso vá acontecer. Interessante que há outras traduções aparecendo agora através da Oxford University Press, que está publicando uma série muito bela sobre literatura da América Latina. Espero que isso vá ajudar muito.