Machado de Assis

I - Discursos de Machado de Assis [1]

a) José de Alencar [2]
 

Proferido por ocasião do lançamento da primeira pedra da estátua de José de Alencar, inaugurada a 1o de maio de 1897, nesta cidade.

 

Senhores,

Tenho ainda presente a essa[3] em que, por algumas horas últimas, pousou o corpo de José de Alencar. Creio que jamais o espetáculo da morte me fez tão singular impressão.

Quando entrei na adolescência, fulgiam os primeiros raios daquele engenho; vi-os depois em tanta cópia e com tal esplendor que eram já um sol, quando entrei na mocidade. Gonçalves Dias e os homens do seu tempo já estavam feitos; Álvares de Azevedo, cujo livro era a boa nova dos poetas, falecera antes de revelado ao mundo. Todos eles influíram profundamente no ânimo juvenil que apenas balbuciava alguma coisa; mas a ação crescente de Alencar dominava as outras. A sensação que recebi no primeiro encontro pessoal com ele foi extraordinária; creio ainda agora que não lhe disse nada, contentando-me de fitá-lo com os olhos assombrados do menino Heine ao ver passar Napoleão. A fascinação não diminuiu com o trato do homem e do artista. Dai o espanto da morte. Não podia crer que o autor de tanta vida estivesse ali, dentro de um féretro, mudo e inábil por todos os tempos dos tempos. Mas o mistério e a realidade impunham-se; não havia mais que enterrá-lo e ir conversá-lo em seus livros.

Hoje, senhores, assistimos ao início de outro monumento, este agora de vida, destinado a dar à cidade, à pátria e ao mundo a imagem daquele que um dia acompanhamos ao cemitério. Volveram anos; volveram coisas; mas a consciência humana diz-nos que, no meio das obras e dos tempos fugidios, subsiste a flor da poesia, ao passo que a consciência nacional nos mostra na pessoa do grande escritor o robusto e vivaz representante da literatura brasileira.

Não é aqui o lugar adequado à narração da carreira do autor de Iracema. Todos vós sabeis que foi rápida, brilhante e cheia; podemos dizer que ele saiu da Academia para a celebridade. Quem o lê agora, em dias e horas de escolha, e nos livros que mais o aprazem, não tem idéa da fecundidade extraordinária que revelou tão depressa entrou na vida. Desde logo pôs mãos à crônica, ao romance, à crítica e ao teatro, dando a todas essas formas do pensamento um cunho particular e desconhecido. No romance, que foi a sua forma por excelência, a primeira narrativa, curta e simples, mal se espaçou da segunda e da terceira. Em três saltos estava o Guarani diante de nós; e daí veio a sucessão crescente de força, de esplendor, de variedade. O espírito de Alencar percorreu as diversas partes da nossa terra, o norte e o sul, a cidade e o sertão, a mata e o pampa, fixando-as em suas páginas, compondo assim com as diferenças da vida, das zonas e dos tempos a unidade nacional de sua obra.

Nenhum escritor teve em mais alto grau a alma brasileira. E não é só porque houvesse tratado assuntos nossos. Ha um modo de ver e de sentir, que dá a nota íntima da nacionalidade, independente da face externa das coisas. O mais francês dos trágicos franceses é Racine, que só fez falar a antigos. Schiler é sempre alemão, quando recompõe Filipe II e Joana d'Arc. O nosso Alencar juntava a esse dom a natureza dos assuntos, tirados da vida ambiente e da história local. Outros o fizeram tambem, mas a expressão do seu gênio era mais vigorosa e mais íntima. A imaginação que sobrepujava nele o espirito de análise, dava a tudo o calor dos trópicos e as galas viçosas de nossa terra. O talento descritivo, a riqueza, o mimo e a originalidade do estilo completavam a sua fisionomia literária.

Não lembro aqui as letras políticas, os dias de governo e de tribuna. Toda essa parte de Alencar fica para a biografia. A glória contenta-se da outra parte. A política era incompatível com ele, alma solitária. A disciplina dos partidos e natural sujeição dos homens às necessidades e interesses comuns não podiam ser aceitas a um espírito que em outra esfera dispunha da soberania e da liberdade. Primeiro em Atenas, era-lhe difícil ser segundo ou terceiro em Roma. Quando um ilustre homem de Estado, respondendo a Alencar, já então apeado do Governo, comparou a carreira política à do soldado, que tem de passar pelos serviços ínfimos e ganhar os postos gradualmente, dando-se a si mesmo como exemplo dessa lei, usou de uma linguagem feliz e verdadeira, mas ininteligível para o autor das Minas de Prata. Um ponto há que notar, entretanto, naquele curto estado político. O autor do Gaúcho carecia das qualidades necessárias à tribuna, mas quis ser orador, e foi orador. Sabemos que se bateu galhardamente com muitas das primeiras vozes do parlamento.

Desenganado dos homens e das cousas, Alencar volveu de todo às suas queridas letras. As letras são boas amigas; não lhe fizeram esquecer inteiramente as amarguras, é certo; senti-lhe mais de uma vez a alma enjoada e abatida. Mas a arte, que é a liberdade, era a força medicatriz do seu espirito. Enquanto a imaginação inventava, compunha e polia novas obras, a contemplação mental ia vencendo as tristezas do coração, e o misantropo amava os homens.

Agora que os anos vão passando sobre o óbito do escritor, é justo perpetuá-lo, pela mão de nosso ilustre estatuário nacional[4]. Concluindo o livro de Iracema, escreveu Alencar esta palavra melancólica: "A jandaia cantava ainda no olho do coqueiro, mas não repetia já o mavioso nome de Iracema. Tudo passa sobre a terra." Senhores, a filosofia do livro não podia ser outra, mas a posteridade é aquela jandaia que não deixa o coqueiro e que, ao contrário da que emudeceu na novela, repete e repetirá o nome da linda tabajara e do seu imortal autor. Nem tudo passa sobre a terra.

 


b) Academia Brasileira de Letras (I)

Proferido na sessão de abertura, em 20 de julho de 1897.

 

Senhores,

Investindo-me no cargo de presidente, quisestes começar a Academia Brasileira de Letras pela consagração da idade. Se não sou o mais velho dos nossos colegas, estou entre os mais velhos. É simbólico da parte de uma instituição que conta viver, confiar da idade funções que mais de um espírito eminente exerceria melhor. Agora que vos agradeço a escolha, digo-vos que buscarei na medida do possível corresponder à vossa confiança.

Não é preciso definir esta instituição. Iniciada por um moço, e aceita e completada por moços[5], a Academia nasce com a alma nova, naturalmente ambiciosa. O vosso desejo é conservar, no meio da federação política, a unidade literária. Tal obra exige, não só a compreensão publica, mas ainda e principalmente a vossa constância. A Academia Francesa, pela qual esta se modelou, sobrevive aos acontecimentos de toda casta, às escolas literárias e às transformações civis. A vossa há de querer ter as mesmas feições de estabilidade e progresso. Já o batismo das suas cadeiras com os nomes preclaros e saudosos da ficção, da lírica, da crítica e da eloqüência nacionais é indício de que a tradição é o seu primeiro voto. Cabe-vos fazer com que ele perdure. Passai aos vossos sucessores o pensamento e a vontade iniciais, para que eles os transmitam também aos seus, e a vossa obra seja contada entre as sólidas e brilhantes páginas da nossa vida brasileira. Está aberta a sessão.

 


c) Academia Brasileira de Letras (II)
 

Proferido na sessão de encerramento, em 7 de dezembro de 1897.

 

Senhores[6],

 

Um artigo do nosso regimento interno impõe-nos a obrigação de adotar no fim de cada ano o programa dos trabalhos do ano vindouro. Outro artigo atribui ao presidente a exposição justificativa deste programa.

Como a nossa ambição, nestes meses de início, é moderada e simples, convém que as promessas não sejam largas. Tudo irá devagar e com tempo. Não faltaram simpatias às nossas estréias. A língua francesa, que vai a toda parte, já deu as boas vindas a esta instituição. Primeiro sorriu; era natural, a dois passos da Academia Francesa; depois louvou, e, a dois passos da Academia Francesa, um louvor vale por dois. Em poucos meses de vida é muito. Dentro do país achamos boa vontade e animação, a imprensa tem-nos agasalhado com palavras amigas. Apesar de tudo, a vida desta primeira hora foi modesta, quase obscura. Nascida entre graves cuidados de ordem pública, a Academia Brasileira de Letras tem de ser o que são as associações análogas: uma torre de marfim, onde se acolham espíritos literários, com a única preocupação literária, e de onde, estendendo os olhos para todos os lados, vejam claro e quieto. Homens daqui podem escrever páginas de história, mas a história faz-se lá fora. Há justamente cem anos o maior homem de ação dos nossos tempos, agradecendo a eleição de membro do Instituto de França, respondia que, antes de ser igual aos seus colegas, seria por muito tempo seu discípulo. Não era ainda uma faceirice de grande capitão, posto que esse rapaz de vinte e oito anos meditasse já sair à conquista do mundo. A Academia Brasileira de Letras não pede tanto aos homens públicos deste país; não inculca ser igual nem mestra deles. Contenta-se em fazer, na medida de suas forças individuais e coletivas, aquilo que esse mesmo acadêmico de 1797 disse então ser a ocupação mais honrosa e útil dos homens: trabalhar pela extensão das idéias humanas. [7]

No próximo ano não temos mais que dar andamento ao anuário bibliográfico, coligir os dados biográficos e literários, como subsídio para um dicionário bibliográfico nacional, e, se for possível, alguns elementos do vocabulário crítico dos brasileirismos entrados na língua portuguesa, e das diferenças no modo de falar e escrever dos dois povos, como nos obrigamos por um artigo do regimento interno.

São obras de fôlego, cuja importância não é preciso encarecer a vossos olhos. Pedem diuturnidade paciente. A constância, se alguma vez faltou a homens nossos de outra esfera, é virtude que não pode morar longe desta casa literária.

O último daqueles trabalhos pode ser feito ainda com maior pausa; ele exige, não só pesquisa grande e compassada atenção, mas muita crítica também. As formas novas da língua, ou pela composição de vocábulos, filhos de usos e de costumes americanos, ou pela modificação do sentido original, ou ainda por alterações gráficas, serão materiais de útil e porfiado estudo. Com os elementos que existem esparsos, e os que se organizarem, far-se-á qualquer cousa que no próximo século se irá emendando e completando. Não temamos falar do próximo século, é o mesmo que dizer daqui a três anos, que ele não espera mais; e há tal sociedade de dança que não conta viver menos. Não é vaidade da Academia Brasileira de Letras lançar os olhos tão longe.

A Academia, trabalhando pelo conhecimento desses fenômenos, buscará ser, com o tempo, a guarda da nossa língua. Caber-lhe-á então defendê-la daquilo que não venha das fontes legítimas, - o povo e os escritores, - não confundindo a moda, que perece, com o moderno, que vivifica. Guardar não é impor; nenhum de vós tem para si que a Academia decrete formulas. E depois para guardar uma língua, é preciso que ela se guarde também a si mesma, e o melhor dos processos é ainda a composição e a conservação de obras clássicas. A autoridade dos mortos não aflige, e é definitiva. Garrett pôs na boca de Camões aquela célebre exortação em que transfere ao "Generoso Amazonas" o legado do casal paterno. Sejamos um braço do Amazonas; guardemos em águas tranqüilas e sadias o que ele acarretar na marcha do tempo.

Não há justificar o que de si mesmo se justifica; limito-me a esta breve indicação de programa. As investigações a que nos vamos propor, esse recolher de leitura ou de outiva, não será um ofício brilhante ou ruidoso, mas é útil, e a utilidade é um título, ainda nas academias.

 


d) Gonçalves Dias [8]

 

Proferido no Passeio Público, ao inaugurar-se a herma do Poeta, aos 2 de junho de 1901.[9]

 

Sr. Prefeito do Districto Federal,

A comissão que tomou a si erguer este monumento, incumbiu-me, como Presidente da Academia Brasileira, de o entregar a V. Exa, como representante da cidade. O encargo é, não somente honroso, mas particularmente agradável à Academia e a mim.

Se eu houvesse de dizer tudo o que este busto exprime para nós, faria um discurso, e é justamente o que os autores da homenagem não devem querer neste momento. Conta Renan que, uma hora antes dos funerais de Jorge Sand, quando alguns cogitavam no que convinha proferir à beira da sepultura, ouviu-se no parque da defunta cantar um rouxinol. "Ah! Eis o verdadeiro discurso", disseram eles consigo. O mesmo seria aqui, se cantasse um sabiá. A ave do nosso grande poeta seria o melhor discurso da occasião. Ela repetiria à alma de todos aquela canção do exílio que ensinou aos ouvidos da antiga mãe-pátria uma lição nova da língua de Camões. Não importa! A canção está em todos nós, com os outros cantos que ele veio espalhando pela vida e pelo mundo, e o som dos golpes da Itajuba, a piedade de I-Juca-Pirama, os suspiros de Coema, tudo o que os mais velhos ouviram na mocidade, depois os mais jovens, e daqui em diante ouvirão outros e outros, enquanto a língua que falamos for a língua dos nossos destinos.

Dizem que os cariocas somos pouco dados aos jardins públicos. Talvez este busto emende o costume; mas, supondo que não, nem por isso perderão os que só vierem contemplar aquela fronte que meditou paginas tão magníficas. A solidão e o silêncio são asas robustas para os surtos do espirito. Quem vier a este canto do jardim, entre o mar e a rua[10], achará o que se encontra nas capelas solitárias, uma voz interior, e dirá pelo rosário da memória as preces em verso que ele compôs e ensinou aos seus compatrícios.

E desde já ficam as duas obras juntas. Uma responderá pela outra. Nem V. Exa, nem os seus sucessores consentirão que se destrua este abrigo de folhas verdes, ou se arranque daqui este monumento de arte. Si alguém propuser arrasar um e mudar outro, para trazer utilidade ao terreno, por meio de uma avenida, ou coisa equivalente, o Prefeito recusará a concessão, dizendo que este jardim, conservado por diversos regimens, está agora consagrado pela poesia, que é um regímen só, universal, comum e perpétuo. Também pode declarar que a veneração de seus grandes homens é uma virtude das cidades. E isto farão os Prefeitos de todos os partidos, sem agravo do seu próprio, porque o poeta que ora celebramos, fiel à vocação, não teve outro partido que o de cantar maravilhosamente.

Demais, se o caso for de utilidade, V. Exa e os seus sucessores acharão aqui o mais útil remédio às agruras administrativas. Este busto consolará do trabalho acerbo e ingrato; ele dirá que há também uma prefeitura do espírito, cujo exercício não pede mais que o mudo bronze e a capacidade de ser ouvido na seu eterno silêncio. E repetirá a todos o nome de V. Exa, que o recebeu e o dos outros que porventura vierem contemplá-lo. Também aqui vinha, há muitos anos, desenfadar-se da véspera, sem outro encargo nem magistratura que os seus livros, o autor de Iracema. Se já estivesse aqui este busto, ele se consolaria da vida com a memória, e do tempo com a perenidade. Mas então só existiam as árvores. Bernardelli, que tinha de fundir o bronze de ambos, não povoara ainda as nossas praças com obras de artista ilustre. Olavo Bilac, que promoveu a subscrição de senhoras a que se deve esta obra, não afinara ainda pela lira de Gonçalves Dias a sua lira deliciosa.

Aqui fica entregue o monumento a V. Exa, Sr. Prefeito, aqui onde ele deve estar, como outro exemplo da nossa unidade, ligando a pátria inteira no mesmo ponto em que a história, melhor que leis, pôs a cabeça da nação, perto daquele gigante de pedra que o grande poeta cantou em versos másculos.

 


e) A Guglielmo Ferrero
 

Proferido no banquete oferecido pela Academia Brasileira ao historiador italiano no dia 31 de outubro de 1907.

 

Sr. Guglielmo Ferrero,

 

A Academia Brasileira convidou-vos a dar algumas conferências neste país. Contava, decerto, com a admiração que lhe haviam imposto os vossos escritos, mas a vossa palavra excedeu a sua confiança. Não é raro que as duas formas de pensamento se conjuguem na mesma pessoa; conhecíamos aqui este fenômeno e sabíamos dele em outras partes, mas foi preciso ouvir-vos para senti-lo ainda uma vez bem, e por outra língua canora e magnífica.

Agora que ides deixar-nos levareis à Itália, e por ela ao resto do mundo europeu, a notícia do nosso grande entusiasmo. Creio que levareis mais. O que o Brasil revelou da sua crescente prosperidade ao eminente historiador de Roma ter-lhe-á mostrado que este pedaço da América não desmente a nobreza da estirpe latina e crê no papel que, de futuro, lhe cabe. E se com essa impressão política levardes também a da simpatia pessoal e profunda que inspirastes a todos nós, a Academia Brasileira folgará duas vezes pelo impulso do seu ato de convite, e aqui vo-lo declara, oferecendo-vos este banquete.

 


--------------------------------------------------------------------------------

 

II - Discurso de Rui Barbosa

Machado de Assis (1)

Oração fúnebre proferida a 30 de setembro de 1908, na câmara ardente do escritor, na sede da Academia Brasileira de Letras, ao partir o enterro.

Publicada no Correio da Manhã, A Imprensa, Jornal do Brasil, Jornal do Commercio e O Paiz, de 2 de outubro de 1908.

Designou-me a Academia Brasileira de Letras para vir trazer ao amigo que de nós aqui se despede, para lhe vir trazer nas suas próprias palavras, num gemido da sua lira, para lhe vir trazer o nosso "coração de companheiros".

Eu quase não sei dizer mais, nem sei que mais se possa dizer, quando as mãos que se apertavam no derradeiro encontro, se separam desta para a outra parte da eternidade. Nunca ergui a voz sobre um túmulo, parecendo-me sempre que o silêncio era a linguagem de nos entendermos com o mistério dos mortos. Só o irresistível de uma vocação como a dos que me chamaram para órgão destes adeuses me abriria a boca do pé deste jazigo, em torno do qual, ao movimento das emoções reprimidas se sobrepõe o murmúrio do indizível, a sensação de uma existência cuja corrente se ouvisse cair de uma em outra bacia, no insondável do tempo, onde se formam do veio das águas sem manchas, as rochas de cristal exploradas pela posteridade.

Do que ela se reserva em surpresas, em maravilhas de transparência e sonoridade e beleza na obra de Machado de Assis; di-lo-ão outros, hão de o dizer os seus confrades, já o está dizendo a imprensa, e de esperar é que o diga, dias sem conta, derredor do seu nome, da lápide que vai tombar sobre seu corpo, mas abrir a porta ao ingresso da sua imagem na sagração dos incontestados, à admiração, à reminiscência, à mágoa sem cura dos que lhe sobrevivem. Eu, de mim, porém, não quisera falar senão do seu coração e de sua alma.

Daqui deste abismar-se de ilusões e esperanças que sossobram ao cerrar de cada sepulcro, deixemos passar a glória na sua resplandescência, na sua fascinação, na impetuosidade do seu vôo. Muito ressumbra sempre da nossa debilidade, na altivez do seu surto e na confiança das suas asas. As arrancadas mais altas do gênio mal se libram nos longes da nossa atmosfera, de todas as partes envolvida e distanciada pelo infinito. Para se não perder no incomensurável deste, para se avizinhar a terra do firmamento, para desassombrar a impenetrabilidade da morte, não há nada como a bondade. Quando ela, como aqui, se debruça fora de uma campa ainda aberta, já se não cuida que lhe esteja à beira, de guarda, o mais malquisto dos nomes, no sentimento grego, e os braços de si mesmo se levantam, se estendem, se abrem, para tomar entre si a visão querida, que se aparta.

Não é o clássico da língua; não é o mestre da frase; não é o árbitro das letras, não é o filósofo do romance; não é o mágico do conto; não é o joalheiro do verso, o exemplar, sem rival entre os contemporâneos, da elegância e da graça, do aticismo e da singeleza no conceber e no dizer; é o que soube viver intensamente da arte, sem deixar de ser bom. Nascido com uma destas predestinações sem remédio ao sofrimento, a amargura do seu quinhão nas expiações da nossa herança o não mergulhou no pessimismo dos sombrios, dos mordazes, dos invejosos, dos revoltados. A dor lhe aflorava ligeiramente aos lábios, lhe roçava ao de leve a pena, lhe reçumava sem azedume das obras, num ceticismo entremeio de timidez e desconfiança, de indulgência e receio, com os seus toques de malícia a sorrirem, de quando em quando, sem maldade, por entre as dúvidas e as tristezas o artista. A ironia mesma se desponta, se embebe de suavidade no íntimo desse temperamento, cuja compleição, sem desigualdades, sem espinhos, sem asperezas, refratária aos antagonismos e aos conflitos, dir-se-ia emersa das mãos da própria Harmonia, tal qual essas criações da Hélade, que se lavraram para a imortalidade num mármore cujas linhas parecem relevos do ambiente e projeções do céu no meio do cenário que as circunda .

Deste lado moral da sua entidade, quem me dera saber exprimir, neste momento, o que eu desejaria. Das riquezas da sua inspiração na lírica, da sua mestria no estilo, da sua sagacidade na psicologia, do seu mimo na invenção, da sua bonomia no humorismo, do seu nacionalismo na originalidade, da sua lhaneza, tato e gosto literário, darão testemunho perpetuamente os seus escritos, galeria de obras primas que não atesta menos da nossa cultura, da independência, da vitalidade e das energias civilizadoras da nossa raça do que uma exposição inteira de tesouros do solo e produtos mecânicos do trabalho. Mas, nesta hora de entrada ao ignoto, a este contato quase direto, quase sensível com a incógnita do problema supremo, renovado com interrogações da nossa ansiedade cada vez que um de nós desaparece na torrente das gerações, não é a ocasião dos cânticos, de entusiasmo, dos hinos pela vitória nas porfias do talento. A este não faltarão comemorações, cujo círculo se alargará com os anos, à medida que o rastro de luz penetrar pelo futuro além, cada vez mais longe do seu foco.

O que se apagaria talvez se não o colhêssemos logo na memória dos presentes, dos que lhe cultivaram o afeto, dos que lhe seguiram os dias, dos que lhe escutaram o peito, dos que lhe fecharam os olhos, é o sopro da sua vida moral. Quando ele se lhe exalou pela última vez, os amigos que lho receberam como derradeiro anélito contraíram a obrigação de o reter, como se reteria na máxima intensidade de aspirações dos nossos pulmões o aroma de uma flor cuja espécie se extinguisse, para a dar a sentir aos sobreviventes, e dele impregnar a tradição, que não perece.

Eu não fui dos que o respiraram de perto. Mas, homem do meu tempo, não sou estranho às influências do mal e do bem, que lhe perpassam no ar. Numa época de lassidão e violência, hostilidade e fraqueza, de agressão e anarquia nas coisas e nas idéias, a sociedade necessita justamente, por se recobrar, de mansidão e energia, de resistência e conciliação. São as virtudes da vontade e as do coração as que salvam nesses transes. Ora, dessas tendências que atraem para a estabilidade, a pacificação e a disciplina, sobram exemplos no tipo desta vida, mal extinta e ainda quente.

Modelo foi de pureza, correção, temperança e doçura; na família, que a unidade e devoção do seu amor converteram em santuário; na carreira pública, onde se extremou pela fidelidade e pela honra; no sentimento da língua pátria , em que prosava como Luiz de Souza e cantava como Luiz de Camões; na convivência dos seus colegas, dos seus amigos, em que nunca deslizou da modéstia, do recato, da tolerância, da gentileza. Era sua alma um vaso de amenidade e melancolia. Mas a missão da sua existência, repartida entre o ideal e a rotina, não se lhe cumpriu sem rudeza e sem fel. Contudo, o mesmo cálice da morte, carregado de amargura, lhe não alterou a brandura da têmpera e a serenidade da atitude.

Poderíamos gravar-lhe aqui, na laje da sepultura, aquilo de um grande livro cristão: "Escreve, lê, canta, suspira, ora, sofre os contratempos virilmente", se eu não temesse claudicar, aventurando que as suas tribulações conheceram o lenitivo da prece. O instinto, não obstante, no-lo advinha nas trevas do seu naufrágio, quando, na orfandade do lar despedaçado, cessou de encontrar a providência das suas alegrias e das suas penas, entre as caricias da que tinha sido a meeira da sua lida e do seu pensamento.

Mestre e companheiro, disse eu que nos íamos despedir. Mas disse mal. A morte não extingue: transforma; não aniquila: renova; não divorcia: aproxima. Um dia supuseste "morta e separada" a consorte dos teus sonhos e das tuas agonias que te soubera "pôr um mundo inteiro no recanto" do teu ninho; e, todavia, nunca ela te esteve mais presente, no íntimo de ti mesmo e na expressão do teu canto, no fundo do teu ser e na face das tuas ações. Esses quatorze versos inimitáveis, em que o enlevo dos teus discípulos resume o valor de toda uma literatura, eram a aliança de ouro do teu segundo noivado, um anel de outras núpcias, para a vida nova do teu renascimento e da tua glorificação, com a sócia sem nódoa dos teus anos de mocidade e madureza, da florescência e frutificação de tua alma. Para os eleitos do mundo das idéias, a miséria está na decadência, e não na morte. A nobreza de uma nos preserva das ruínas da outra. Quando eles atravessam essa passagem do invisível, que os conduz à região da verdade sem mescla, então é que entramos a sentir o começo do seu reino, o reino dos mortos sobre os vivos.

Ainda quando a vida mais não fosse que a urna da saudade, o sacrário da memória dos bons, isso bastava para a reputarmos um benefício celeste, e cobrirmos de reconhecimento a generosidade que nô-la doou. Quando ela nos prodigaliza dádivas como a do teu espírito e a da tua poesia, não é que lhe devêramos duvidar da grandeza, a que te acercaste primeiro do que nós, mestre e companheiro. Ao chegar da nossa hora, em vindo a de te seguirmos um a um no caminho de todos, levando-te a segurança da justiça da posteridade, teremos o consolo de haver cultivado, nas verdadeiras belezas da tua obra, na obra dos teus livros e da tua vida, sua idealidade, sua sensibilidade, sua castidade, sua humanidade, um argumento mais da existência e da infinidade dessa origem de todas as graças à onipotência de quem devemos a criação do universo e a tua, companheiro e mestre, sobre cuja transfiguração na eternidade e na glória caiam as suas bênçãos, com as da pátria que te reclina ao seu seio.

1)      Transcrito da Revista da Academia Brasileira de Letras no 51 (ano XVII - março de 1926, p. 217-22).

 


--------------------------------------------------------------------------------

 

III - Crônica de Euclides da Cunha

 

A Última Visita [11]
 

Publicado no Jornal do Commercio em 30 de setembro de 1908, reproduzido no dia 1 de outubro, por ter saído com incorreções.

 

Na noite em que faleceu Machado de Assis, quem penetrasse na vivenda do poeta, em Laranjeiras, não acreditaria que estivesse tão próximo o triste desenlace da sua enfermidade. Na sala de jantar, para onde dava o quarto do querido mestre, um grupo de senhoras - ontem meninas que ele carregava nos braços carinhosos, hoje nobilíssimas mães de famílias - comentavam-lhe os lances encantadores da vida e reliam-lhe antigos versos, ainda inéditos, avaramente guardados nos álbuns caprichosos. As vozes eram discretas, as mágoas apenas rebrilhavam nos olhos marejados de Iágrimas, e a palidez completa no recinto onde a saudade gloriflcava uma existência, além da morte.

No salão de visitas viam-se alguns discípulos dedicados, também aparentemente tranqüilos.

E compreendia-se desde logo a antilogia de corações tão ao parecer tranqüilos na iminência de uma catástrofe. Era o contágio da própria serenidade incompatível e emocionante em que ia a pouco e pouco extinguindo-se o extraordinário escritor. Realmente, na fase aguda de sua moléstia, Machado de Assis, se por acaso traía com um gemido e uma contração mais viva o sofrimento, apressava-se em pedir desculpas aos que o assistiam, na ânsia e no apuro gentilíssimo de quem corrige um descuido ou involuntário deslize. Timbravam em sua primeira e última dissimulação: a dissimulação da própria agonia, para não nos magoar com o reflexo de sua dor. A sua infinita delicadeza de pensar, de sentir, e de agir, que no trato vulgar dos homens se exteriorizava em timidez embaraçadora e recatado retraimento, transfigurava-se em fortaleza tranqüila e soberana.

E gentilissimamente bom durante a vida, ele se tornava gentilmente heróico na morte...

Desapontamento. Mas aquela placidez augusta despertava na sala principal, onde se reuniam Coelho Neto, Graça Aranha, Mário de Alencar, José Veríssimo, Raimundo Correia e Rodrigo Otávio, comentários divergentes. Resumia-os um amargo desapontamento. De um modo geral, não se compreendia que uma vida que tanto viveu as outras vidas, assimilando-as através de análises sutilíssimas, para no-Ias transfigurar e ampliar, aformoseadas em sínteses radiosas -, que uma vida de tal porte desaparecesse no meio de tamanha indiferença, num círculo limitadíssimo de corações amigos. Um escritor da estatura de Machado de Assis só devera extinguir- se dentro de uma grande e nobilitadora comoção nacional.

Era pelo menos desanimador tanto descaso - a cidade inteira, sem a vibração de um abalo, derivando imperturbavelmente na normalidade de uma existência complexa - quando faltavam poucos minutos para que se cerrassem 40 anos de literatura gloriosa...

Neste momento, precisamente ao anunciar-se esse juízo desalentado, ouviram-se umas tímidas pancadas na porta principal da entrada.

Abriram-na. Apareceu um desconhecido: um adolescente, de 16 ou 18 anos, no máximo. Perguntaram-lhe o nome. Declarou ser desnecessário dizê-lo: ninguém ali o conhecia; não conhecia por sua vez ninguém; não conhecia o próprio dono da casa, a não ser pela leitura de seus Livros, que o encantavam. Por isso, ao ler nos jornais da tarde que o escritor se achava em estado gravíssimo, tivera o pensamento de visitá-lo. Relutara contra essa idéia, não tendo quem o apresentasse: mas não lograva vencê-Ia. Que o desculpassem, portanto. Se lhe não era dado ver o enfermo, dessem-lhe ao menos notícias certas de seu estado.

E o anônimo juvenil - vindo da noite - foi conduzido ao quarto do doente. Chegou. Não disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre, beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-o depois por algum tempo ao peito. Levantou-se e, sem dizer palavra, saiu.

A porta, José Veríssimo perguntou-lhe o nome. Disse-lho.

Mas deve ficar anônimo[12]. Qualquer que seja o destino desta criança, ela nunca mais subirá tanto na vida. Naquele momento o seu coração bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade. Naquele meio segundo - no meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis, aquele menino foi o maior homem de sua terra.

Ele saiu - e houve na sala, há pouco invadida de desalentos, uma transfiguração.

No fastígio de certos estados morais concretizam-se às vezes as maiores idealizações.

Pelos nossos olhos passara a impressão visual da Posteridade...

 


--------------------------------------------------------------------------------

 

IV - Discurso de Olavo Bilac

 

Inauguração da Placa [13]
 

Proferido no dia 29 de setembro de 1909, por ocasião de ser afixada uma placa de bronze na frontaria da casa em que viveu Machado de Assis.

Publicado na Gazeta de Notícias em 30 de setembro de 1909.

Poucas palavras, poucas e carinhosas, devem ser ditas aqui, para que em tudo a comemoração seja digna do comemorado. Seria uma ofensa à memória do Mestre qualquer manifestação que destoasse da sobriedade encantadora e do recato severo que governaram a sua vida artística e a sua vida íntima, a sua teoria literária e o seu estilo. O culto deve ser sempre adequado ao nume: bulhento e borbulhante, para os que tiveram ou têm o amor da adoração pomposa, - e simples e pensado, e mais tecido de ternura e de respeito do que de entusiasmo, para aqueles cuja sublimidade reside mais na solidez do que no brilho, mais na verdade do que na aparência, mais na harmonia temperada e justa do que no exaltamento nem sempre fecundo.

Quando se dirige a certos homens, ainda a mais ardente admiração há de ser calma e raciocinada, se quiser honrar o seu objeto. Machado de Assis temia acima de tudo o barulho e a cintilação das palavras vazias, que tanto agradam aos espíritos fúteis. A sua face triste e suave, o seu modo natural, a brandura da sua palavra e de seu gesto, a modéstia dos seus gostos, a moderação dos seus juízos, a sua filosofia que condenava como crimes as cegueiras da paixão, e o seu estilo que repudiava como vícios os exageros retóricos, - tudo nele aconselhava e pedia, não o aplauso frenético, mas a afeição sincera e a consideração inteligente; tudo nele parecia dizer: não me admireis; amai-me, e compreendei-me...

Amaram-no com extremada ternura os seus íntimos; compreenderam-no e compreendem-no os seus companheiros e condiscípulos, os seus irmãos em arte, aqueles que, pelo hábito de pensar e de escrever, podem sentir e entender o inigualável tesouro de idéias e de expressões que se encerra nos seus livros, monumento perene votado à glória da língua vernácula. Não o compreendeu ainda todo o seu país, porque ele foi de algum modo um homem superior à sua época e ao seu meio; mas essa compreensão unânime há de vir com o tempo, com o aperfeiçoamento progressivo e fatal dos homens, com a fixação definitiva de uma cultura geral que já começa a afirmar-se. Então, o Mestre será admirado, com a admiração consciente e precisa que a sua obra requer; e a história da nossa civilização há de guardar com orgulho esse formoso legado, esses livros em que o ceticismo vive de par com a piedade, em que a misericórdia pela miséria humana tempera o amargo da ironia, em que a descrença é adoçada pela bondade e em que as idéias meigas ou duras, de tolerância ou de revolta, sempre se vestem de uma forma pura e nobre, simples e majestosa, aliando a força à graça, a energia ao bom gosto.

A cerimônia de hoje é íntima. É a romaria dos primeiros fiéis. É a primeira peregrinação dos que assentam as bases do culto. E é a homenagem da família literária ao chefe que perdeu.

Um dia, descrevendo a austera figura de Spinoza, em um soneto de rara beleza, Machado de Assis mostrou-nos o filósofo, grave e solitário, no seu retiro de lida e pensamento, apartado das vãs ambições e das cobiças grosseiras, cativo apenas do mundo interior das suas idéias:

 

"Soem cá fora agitações e lutas,
sibile o bafo aspérrimo do inverno,
tu trabalhas, tu pensas e executas,

 

sóbrio e tranqüilo, desvelado e terno,
a lei comum, e morres, e transmutas
o suado labor no prêmio eterno..."

 

Inspirou e ditou estes versos uma afinidade real entre dois espíritos de eleição. Sem o temperamento combativo do sombrio Spinoza, o nosso grande escritor teve a mesma dignidade de vida, a mesma abnegação modesta, a mesma escravização ao domínio exclusivo das idéias, - e o mesmo gosto da solidão, que em certos homens não é timidez nem orgulho, mas somente a tristeza de quem se reconhece diverso do comum das gentes e fadado a viver, se não ignorado, ao menos mal entendido dos seus contemporâneos.

Como não recordar esses versos, na visita que hoje fazemos à casa do escritor filósofo, um ano depois da extinção da sua vida?

Aqui viveu Machado de Assis vinte e quatro anos de trabalho sem trégua e de pensamento incessante. Neste quieto recanto da cidade, longe de "agitações e lutas", fugindo à curiosidade pública, ao louvor da multidão, à popularidade fácil, e à sedução brilhante mas estéril da política, - dividiu ele o melhor da sua existência, vinte e quatro anos da sua maturidade fecunda, entre o gozo recatado da sua felicidade doméstica e o gozo igualmente discreto da sua arte. Aqui sonhou, aqui pensou, aqui edificou a sua glória. Noite alta, entre estas folhagens amigas, que resguardavam zelosamente o ninho do seu afeto e a oficina do seu pensamento, brilhava o clarão da lâmpada que alumiava a sua operosa vigília. Conheciam-no bem estas árvores, estas flores, e as aves que o saudavam ao romper da manhã; todas as coisas inanimadas e todos os seres inocentes deste poético retiro conheciam e amavam aquele austero poeta e aquele meigo beneditino, voluntariamente clausurado na tarefa paciente e no sonho criador. Aqui experimentou ele, com a satisfação de ser amado e com as agruras dos padecimentos físicos, o prazer de tratar o idioma que prezava tanto, as torturas da análise interior, os sobressaltos e angústias da criação literária, a febre a um tempo deliciosa e cruel da composição, e a ânsia dos que correm atrás da perfeição esquiva... Daqui saíram muitos dos seus melhores livros, vasta cadeia de primores, coroada por essa flor de saudade e amargura, por esse amável Memorial de Aires, onde, sob o véu de uma ficção romanesca, a alma viúva e ferida do escritor celebra na virtude e na ventura de um lar modelo a antiga ventura e a antiga virtude do seu próprio lar enlutado.

Aqui, por vinte e quatro anos, ele trabalhou, pensou, executou "a lei comum, e morreu e transmutou
"o suado labor no prêmio eterno..."

E aqui vem hoje a Academia Brasileira trazer-lhe a expressão comovida do seu respeito e da sua saudade. Perdendo o Mestre não perdemos o exemplo constante, a viva lição, o modelo nobre que ele sempre nos foi. Há de acompanhá-lo na morte o mesmo afeto que lhe dedicamos em vida. Aqui vimos, e viremos; e aqui virão quando tivermos desaparecido, aqueles que nos sucederem. Já três de nós[14], depois de Machado de Assis, no escasso prazo de um ano, desertaram também, levados pela morte, o seio da Companhia. Mas toda a nossa força reside na continuidade moral da nossa missão. Não nos sucedemos apenas: também nos continuamos; mudam-se os nomes, mas fica o ideal que os encadeia: há de perdurar na Academia, exemplar e consoladora, a memória do Mestre. E há de o tempo morder e devorar esta placa de bronze; hão de as soalheiras e as chuvas

arruinar e aluir esta casa; - mas, se um horroroso cataclismo social não dispersar esta nossa raça, e não aniquilar a língua que falamos, a nossa romaria de hoje terá sido o início de uma glória perpétua.

 

 

--------------------------------------------------------------------------------

 

 


[1] Transcritos da Revista da Academia Brasileira de Letras nos 1 (ano I - julho de 1910, p. 165-6 & 176-8) e 68 (ano XVIII - agosto de 1927, p. 431-7) e dispostos cronologicamente. Os dois discursos proferidos em sessão da Academia foram publicados no no 1 da Revista.

[2] Incluído pelo escritor em Páginas Recolhidas (1899).

[3] Estrado que se ergue numa igreja para nele se colocar um cadáver enquanto se efetuam as cerimônias fúnebres. (Dicionário Aurélio)

[4] Referência ao escultor mexicano, naturalizado brasileiro, Rodolfo Bernardelli (1852-1931). Entre suas obras mais conhecidas, estão a estátua de D. Pedro I, no Museu do Ipiranga, em São Paulo, e a fachada da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. A Academia Brasileira de Letras abriga um busto de Machado de Assis esculpido por Rodolfo Bernardelli, bem como um retrato de Machado de Assis pintado por Henrique Bernardelli, seu irmão.

[5] Referência a Medeiros e Albuquerque (1867-1934), que cogitou da idéia em 1889, quando ocupava uma das diretorias do Ministério do Interior. Medeiros pensara em uma Academia criada pelo governo e chegou a escrever seus estatutos, que mostrou a Lúcio de Mendonça (1854-1909), então Secretário do Ministro da Justiça. Só em 1896 a idéia prosperou, por iniciativa de Lúcio de Mendonça - o que foi reconhecido por Medeiros e Albuquerque em discurso pronunciado na sessão de 10 de janeiro de 1924: "Pode-se dizer que foi ele quem fez tudo."

[6] No original, sem o vocativo.

[7] Referência a Napoleão Bonaparte (1769-1821), eleito em 1797 para a primeira classe do Instituto de França, seção de Artes Mecânicas. O Instituto congrega, entre outras, a Academia Francesa, a Academia de Belas Artes e duas Academias de Ciências, tendo Napoleão ocupado a presidência do Bureau de Sciences Physique et Matematique na primeira década do século XVIII.

[8] Incluído pelo escritor em Relíquias da Casa Velha (1906).

[9] Nesse mesmo dia, à noite, no Real Gabinete Português de Leitura, fazia Olavo Bilac o panegírico de Gonçalves Dias, patrono de sua cadeira na Academia, que está publicado no vol. I da Revista da Academia, p. 222.

[10] O mar, então, ia até próximo do Passeio Público (o Aterro da Glória é obra da segunda metade do século XX).

[11] Transcrito da Revista da Academia Brasileira de Letras no 51 (ano XVII - março de 1926, p. 217-22).

[12] Josué Montello, em crônica publicada em 27 de novembro de 1965, assim se expressa em relação a esse jovem desconhecido, cuja identidade fora revelada por Lúcia Miguel-Pereira em 1936 (no livro Machado de Assis, p. 285):

"Pois foi o autor desse gesto, a quem Euclides da Cunha dedicou uma de suas páginas mais sentidas, que morreu no sábado, admirado por todos aqueles que, no Brasil, têm a perfeita consciência do ofício de escritor. / Em relação a Machado de Assis, Astrojildo Pereira não se limitou ao gesto da adolescência: toda a sua vida ele a consagrou a estudar e compreender o mestre, sobre quem escreveu um livro de obrigatória consulta, como interpretação da obra e da personalidade de nosso maior escritor." (Diário Completo, v. 1, p. 835)

Astrojildo Pereira (1890-1965) escreveu os seguintes livros sobre Machado: Machado de Assis, romancista do Segundo Reinado (1939), Interpretações (1944) e Machado de Assis, ensaios e apontamentos avulsos (1959).

[13] Transcrito da Revista da Academia Brasileira de Letras no 51 (ano XVII - março de 1926, p. 226-30). A placa, hoje guardada no Museu Histórico Nacional, contém a seguinte inscrição:

MACHADO DE ASSIS / NAC. NESTA CIDADE A / 21-6-1839 / HABITOU ESTA CAZA 24 ANOS. NELLA / ESCREVEU A MAIOR PARTE DE SUA OBRA E / FALECEU A / 29-9-1908 / A ACADEMIA BRAZILEIRA DA QUAL ELLE FOI O / PRIMEIRO PRESIDENTE / COLOCOU ESTA LÁPIDE A / 29-9-1909

A casa em que viveu Machado de Assis foi demolida. Era a de no 48 da rua Francisco Octaviano (Águas Férreas),no terro onde hoje está erguido um edifício de dez andares de apartamentos, além de um andar térreo de lojas comerciais. O endereço atual é rua Cosme Velho, 174, esquina com a rua Marechal Pires Ferreira. Há duas placas afixadas na fachada: uma, colocada pela Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro (dez. 1993), e outra da Associação dos Moradores e Amigos do Cosme Velho (sem data). Ambas identificam "o local onde morreu Machado de Assis no ano de 1908". O prédio atual, construído em 1981, conserva em seu pátio interno duas árvores frutíferas remanescentes do jardim da casa demolida, uma jaqueira e um pé de cajá-manga.

[14] Artur Azevedo (em 22/10/1908), Euclides da Cunha (em 15/09/1909) e Guimarães Passos (em 09/09/1909).

 

 

Esta digitação anotada do discurso de Machado de Assis (ou da oração fúnebre de Rui Barbosa / ou da crônica de Euclides da Cunha / ou do discurso de Olavo Bilac) foi transcrita da obra Actas da Academia Brazileira de Lettras, sendo Prezidente o sr. Machado de Assis (1896-1908), tese de concurso para Professor Titular de Língua Portuguesa do Instituto de Letras da UERJ, de autoria de Claudio Cezar Henriques (claudioc@ax.apc.org)