Machado de Assis

Antonio Carlos Secchin é doutor em letras e professor titular de literatura brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Poeta e ensaísta com vários livros publicados, nasceu no Rio de Janeiro em 10 de junho de 1952. Foi eleito para a Cadeira 19 em 03 de junho de 2004.

Para a Biografia e Bibliografia do Acadêmico, acesse o endereço www.academia.org.br.

Confira os áudios clicando nos títulos abaixo:


Depoimento de Antonio Carlos Secchin
Espaço Machado de Assis

16/10/2001

Machado e a Universidade.

ANTONIO CARLOS SECCHIN:
Machado de Assis é duplamente acadêmico: acadêmico pela Academia Brasileira de Letras, e acadêmico também porque a sua obra é constantemente alvo de estudos da Universidade brasileira e também do exterior. Acredito que a multiplicidade de aspectos que a obra de Machado de Assis oferece possibilita, exatamente, esse aproveitamento multidisciplinar em torno de Machado, com leituras sociológicas, filológicas, filosóficas, estéticas, psicanalíticas etc. Então, acredito que Machado, de fato, é mais do que um prato cheio; é um banquete completo para a Universidade.


O romance machadiano

Através do romance Machado teria alcançado, segundo a maioria dos críticos o apogeu de sua produção. Há quem opte pelo conto; fica-se sempre pensando: o conto de Machado, o romance de Machado.

Evidentemente, o romance permite um desdobramento analítico mais detalhado. Portanto, acredito que Machado está inteiramente à vontade nessa forma narrativa, não só na sua chamada segunda fase, ou fase madura, mas também na menos valorizada fase inicial, que só é menos valorizada porque Machado consegue ser superior a si mesmo na segunda parte. Mas creio que se não tivesse havido o Machado maduro, ainda assim teríamos um narrador muito respeitável, dentro dos melhores que a ficção romântica teria podido produzir.

Vejamos bem. Nós fazemos essa divisão das duas fases de Machado, e por menos que se queira recorrer ao aspecto biográfico, temos uma doença de Machado que o levou a ir para Friburgo, onde a sua esposa, D. Carolina, teria anotado o ditado de Memórias póstumas, que Machado lhe fazia. Gosto sempre de enfatizar que essa maturidade machadiana ocorre simultaneamente na narrativa longa de Memórias póstumas de Brás Cubas, mas também na forma do conto ou da novela de O alienista, que é do mesmo período.

Então, não podemos considerar Memórias póstumas de Brás Cubas uma explosão isolada na obra de Machado, sem levar em conta que havia outras narrativas contemporâneas, que apontavam nessa mesma direção.

 

O conto

Dentre essas formas narrativas, a mais consagrada sendo o romance, temos de pensar também na novela - alguns assim catalogam O alienista e Relíquias de casa velha - e sobretudo, no conto. Muitos consideraram que a prática machadiana do conto correspondia a uma espécie de laboratório de técnicas, de perspectivas de aprofundamento, e que depois encontraram um desaguadouro natural na forma romanesca.

É muito interessante uma leitura do conto de Machado até mesmo porque, como se cristalizou um consenso muito sólido acerca dos romances da maturidade de Machado, existem ainda áreas com um certo frescor de descoberta, que correspondem à ficção curta em Machado de Assis.

Portanto, acredito que, como um acompanhamento paralelo à grandeza da ficção de Machado, da ficção romanesca, é muito importante também fazermos a travessia da sua ficção curta, que nos legou tantas obras-primas, como A cartomante, Uns braços, Missa do galo etc.


Do contista ao cronista

O cronista seria abastecido, cotidianamente, pela matéria bruta da realidade do Rio de Janeiro, e depois, o contista iria refinar essa matéria bruta, tentando dar-lhe uma dimensão mais metafísica, mais filosófica, mais existencial. Porém acredito que ambos trabalhavam numa tabelinha muito bem articulada, porque o Machado de Assis contista não abria mão dessa matéria humana do Rio de Janeiro.

O Machado de Assis cronista não deixava de dar as suas pitadas de natureza filosófica, especulativa, e é também com bastante satisfação que tenho observado na Universidade, e mesmo junto às Editoras, esse interesse crescente pela matéria cronística de Machado de Assis, conseguindo superar a contingência da crônica e colocá-la no patamar de uma obra literária que pode aspirar à permanência, mesmo que tenha sido produzida para um consumo mais imediato.


O critico Machado

É um dado curioso porque Machado de Assis, biograficamente, exerceu primeiro a crítica, consolidou-se como crítico literário. Antes de se consolidar como o grande ficcionista, e como o jovem e algo desafiador crítico literário, ele, por exemplo, criticava Eça de Queirós, falava de O primo Basílio, apontava certas restrições.

Subitamente, a atividade crítica de Machado diminuiu. Escreveu alguns poucos prefácios para amigos, na maturidade, mas o material que ele redigiu no início de sua carreira literária - artigos como A nova geração, O primo Basílio, Instintos de nacionalidade - já mostrava um crítico equilibradíssimo, alguém com uma consciência aguda dos problemas da linguagem, alguém que sabia dimensionar muito bem os elementos sociológicos, históricos, a relação entre o nacional e o literário, tudo isso analisado com extrema pertinência e equilíbrio.

Não creio que se possa dizer que Machado de Assis tenha abandonado a crítica. Simplesmente, podemos dizer que ele transferiu esse olhar crítico para o palco das paixões humanas. Nunca deixou de ser um crítico, apenas agora num outro espaço, num outro território. Mas o olhar não condescendente, o olhar rigoroso, o olhar de exigência machadiana, nós podemos encontrá-lo na forma da crítica direta - crítica literária - ou dessa crítica oblíqua, que é a sua visão de mundo na ficção.


Machado e o teatro

O teatro corresponderia a essa fase inicial também da carreira de Machado, onde ele se consagrou como crítico, como dramaturgo e um pouco como poeta. E o próprio Machado parecia entender que ele não poderia ser um autor de sucesso no teatro exatamente pelo seu caráter mais de observação do que de ação.

Quando se pensa num público consumidor do vaudeville ou num público ávido pelo melodrama, com os seus rompantes sentimentais, com as suas reviravoltas de enredo, temos que admitir que isso é bastante diferente do tipo de observação e produção de Machado de Assis, que era algo num caminho muito mais equilibrado, e da sutileza dos pequenos gestos, do que dos atos grandiloqüentes que a platéia de seu tempo exigia.

Machado, assim como todos os intelectuais e produtores de literatura do século XIX, foram extremamente atraídos pelo teatro. Escreveram todos eles para o teatro, e de certa maneira fracassaram também, todos eles, como autores teatrais.


Poesia machadiana

A poesia foi outra paixão de juventude a que Machado retorna na maturidade. Ele estréia com As crisálidas, depois escreve Falenas, Americanas, e silencia quando se inicia a sua grande fase de produção romanesca.

Quando todos pensavam que a poesia em Machado teria correspondido unicamente a uma paixão de juventude, eis que, para espanto dos leitores e alegria da literatura brasileira, ele retorna em 1901, não renegando de todo a sua produção de juventude, e publicando o seu livro Poesias (1901), onde ele reedita, com alguns cortes, os primeiros livros, e acrescenta um inédito, intitulado Ocidentais, composto de poemas escritos basicamente nos anos 80.

É interessante porque nessa passagem dos livros iniciais de poesia de Machado - Crisálidas, Falenas e Americanas - para este livro tardio, Ocidentais, incorporado pela primeira vez na edição de 1901, nós também acompanhamos a transição do poeta romântico para o poeta parnasiano, e percebemos também que, nos dois momentos, Machado seria um autor não desprezível, um autor de categoria.

Mas o que ele fez na prosa de ficção foi tão extraordinário que, a partir disso, a boa produção na poesia, no teatro, na crítica, fica relegada a um modesto segundo plano.


Machado na literatura brasileira

Podemos sintetizar, dizendo que Machado é o grande introdutor da consciência trágica do destino humano na literatura brasileira, o que o crítico José Guilherme Merquior denominava, através de Machado, a introdução da problematização da existência na nossa literatura, porque até então, mesmo no período romântico, não podemos dizer que tenha sido uma literatura superficial, longe disso, mas, evidentemente certas visões de José de Alencar, de Bernardo Guimarães e de outros grandes autores ainda correspondiam a um olhar dividido e maniqueísta da realidade, em que a alma humana seria boa ou seria má, seria elevada ou seria baixa, e não seria composta dessa mistura de tudo que é o que, afinal, marca o ser humano.

Machado teve a acuidade de introduzir em nossas letras essa consciência dilemática do ser humano que, em um momento, pode ser bom, noutro momento, pode ser ruim; num momento será grandioso, no outro será mesquinho, tudo isso convivendo na mesma consciência. Então, este passo fundamental, a meu ver, foi dado por Machado de Assis, e por isso nós todos somos tão gratos a ele.


O enigma em Dom Casmurro

Eu falo aqui diante de um outro grande machadiano, que também encarou um desafio, através de Capitu, de uma re-escrita de Dom Casmurro, o que aconteceu quase na mesma época, sem que soubéssemos do projeto um do outro. Uma idéia que me ocorreu apenas, digamos, enquanto o Domício Proença Filho reelaborou Capitu, o texto de Machado de Assis, de um outro ponto de vista. De um personagem fundamental que era Capitu, eu fiz um deslocamento, não nesse espaço narrativo, mas um deslocamento no tempo narrativo, porque na minha narrativa, que se chama Carta ao Seixas, o papel do narrador é desempenhado pelo próprio narrador machadiano, num período posterior ao período retratado em Dom Casmurro.
Então, esse desafio de reescrever sempre Dom Casmurro, e tratar o enigma, é algo que está incrustado na sensibilidade da cultura brasileira. Todos nós, de alguma maneira, temos que dar uma resposta a esse enigma, mesmo que a resposta seja evasiva e inconclusiva.