Machado de Assis

O Professor Basilio Losada, doutor em filosofia pela Universidade de Barcelona e catedrático de Literatura Galego-Portuguesa, pronunciou, em 25 de março de 2003, a conferência "Una Visíon da la Literatura Brasileña desde España", na Academia Brasileira de Letras. Dois dias depois, esse especialista em nossa literatura deu seu depoimento sobre Machado de Assis.

Confira os áudios clicando no título abaixo:


Depoimento do professor Dr. Basilio Losada
Espaço Machado de Assis

27/03/2003

Meu primeiro contato com a literatura brasileira foi um contato casual. Encontrei um livro, não de Machado de Assis, e sim de Jorge Amado, em um sebo de Barcelona. Naquela época, minha curiosidade se concentrava na literatura portuguesa. Encontrar um livro brasileiro foi uma aventura fascinante, descobri na realidade um mundo. Depois como editor, tive a possibilidade de editar livros de Jorge Amado, de Autran Dourado - cheguei tarde à leitura de Machado de Assis.

Através de um curso de doutorado na Universidade de Barcelona, quis fazer algo novo, algo que nunca se tivesse feito nessa Universidade, e li Machado de Assis. Descobri logo que muitas das coisas que eu admirava em Kafka ou em Dostoievski estavam já perfeitamente manifestadas na obra de Machado de Assis. Vale dizer, não era um escritor de seu tempo, ainda que fosse também um escritor de seu tempo - a sociedade do Rio no Império com seus conflitos substanciais -, mas havia algo muito mais profundo: descobrir o outro lado da realidade, descobrir a face oculta das coisas. E isto numa linguagem cheia de ironia e de ambigüidade, uma linguagem prudente, nada definidora, que rompia com o que era tradição no romance realista europeu.

No momento em que um editor amigo e meu companheiro na Universidade me propôs traduzir um livro de Machado de Assis, pensei que das grandes obras de Machado de Assis, da série de três esplêndidos romances, já havia numerosas edições traduzidas para o espanhol, edições argentinas. Então, procurei um livro que não estivesse no catálogo imediato que qualquer leitor espanhol poderia ter em mãos. E li Helena.

Maravilhou-me que neste romance está todo o romantismo, está o conflito de amores impossíveis ou aparentemente impossíveis, a vontade de transgressão, o descobrimento da liberdade. Algo que é essencial em Machado de Assis: a presença feminina dominante, com uma sensualidade extrema e livre. Como se essas mulheres dos relatos de Machado de Assis percebessem que a liberdade dos sentidos é também uma parte muito importante que tentam constantemente arrebatar-nos, mas é uma parte muito importante da liberdade do homem.

Li Helena apaixonadamente, esquecendo inclusive um pouco a trama, o centro da obra, que responde a uma formulação romântica, teórica, normal. Mas logo descobri ali muitas coisas, descobri isto: o lado oculto dos homens. Descobri que parece que Machado de Assis possuía um escalpelo, um bisturi para - por trás das atitudes do homem, das atitudes que exibimos, daquilo que nos serve para manifestarmos em sociedade, havia realidades mais ocultas, mais profundas, desassossegantes, inquietantes: mostrarmos a outra face do homem.

E ele o faz sem acentuar o magistério, faz simplesmente com um instrumento que é a ironia. Por exemplo, me surpreendia em Helena, quando se fala dos políticos, do mundo da política, observando também, do outro lado, quando alguém - agora não recordo quem é - disse que ele nunca poderá ser um oficiante da política, o que mais poderá chegar a ser é um sacristão da política.

Uma pavorosa história de amor, porém profundamente humana. Por debaixo da tensão romântica, tensão sempre um pouco artificial, há umas personagens reais, possivelmente umas personagens cuja visão do mundo tenha sido deformada através da literatura.

Assim, o que Machado de Assis sabe perfeitamente, é que por trás do que a sociedade nos fez ser, dos elementos que tivemos que construir, nós mesmos, para sermos apresentáveis na sociedade, há sempre uns tremendos abismos. Por isso, minha imagem de Machado de Assis está muito próxima do que extraí de minhas leituras de Dostoievski. Não é, como se julgava no seu tempo, um Anatole France, um narrador burguês, um narrador da vida social; é algo muito mais profundo, um explorador da vida oculta do homem.

Não sei se já se estudou todo o conteúdo pré-freudiano que existe na narrativa de Machado de Assis. Possivelmente, se eu agora tivesse 30 anos, possivelmente me decidiria a fazê-lo. Infelizmente, já não me resta tempo, não me resta vida para algo tão profundo e tão denso. Porém, algumas vezes, recomendei aos meus alunos: ler Machado de Assis. Não é um escritor provinciano, de uma província da literatura, quero dizer, é pai de uma literatura, e em certa medida, pai de um país que se encontrou a si mesmo analisando, lendo e analisando a obra de Machado de Assis, e descobrindo em seus poços escuros esses abismos inquietantes que existem sob a aparência de serenidade e de conformismo social.