Machado de Assis

O Professor John Gledson é da Universidade de Liverpool. É autor de Poesia e poética de Carlos Drummond de Andrade, de Machado de Assis: ficção e história e de Machado de Assis: impostura e realismo. Editou e comentou mais de 120 crônicas de Machado de Assis, reunidas em dois volumes: Bons Dias! e A Semana.

Organizou os volumes: Confrades de versos, que reúne traduções feitas por Machado, e Contos: uma antologia, uma seleção de histórias do escritor fluminense.

Confira o vídeo clicando  aqui

 
Depoimento do professor John Gledson
Espaço Machado de Assis

(14/10/2005)

Meu nome é John Gledson, eu nasci na Inglaterra e fiz os meus estudos na Escócia e nos Estados Unidos. Vim para o Brasil, primeiro em 1970, e principalmente naquela época, para estudar Carlos Drummond de Andrade. Durante uma década mais ou menos, eu continuei esses estudos, mas no fim da década, comecei a me interessar por Machado de Assis por duas razões, principalmente porque um colega meu na Universidade, lá, tinha se demitido, e eu tive que dar aulas sobre Machado.

Honestamente, acho que tinha lido Machado antes, mas não tinha entendido nada. Não sei se tinha gostado ou não, mas certamente não tinha entendido nada. Acho que naquele momento houve duas coisas que se juntaram: uma foi a leitura do que é certamente o livro mais importante sobre Machado a ser escrito nos últimos 50 anos, mais de 50 anos: o livro de Roberto Schwartz, Ao vencedor as batatas, que dá a chave para entendermos os primeiros romances de Machado de Assis. E de entendê-los através de um simples conceito, que é o conceito do favor e das relações de favor, que tipificam até hoje, de certa maneira, a sociedade brasileira ¯ e que são óbvios quando a gente os vê, mas o paradoxo é que são tão óbvios, que a gente não os vê; às vezes, ficam tão perto de nós, que a gente não os nota.

Aí eu comecei a ler um pouco as outras obras de Machado, comecei a me interessar, e topei com um pequeno romance de Machado, que ele publicou numa revista de senhoras nos anos 80 do século XIX, que se chama Casa velha. E uma das minhas façanhas das quais mais me orgulho é que esse romancinho ¯ que Machado nunca republicou e que nunca fora republicado desde uma edição que a Lúcia Miguel Pereira fez nos anos 40 ¯ já teve várias reedições, porque a minha interpretação desse pequeno romance fez com que ele voltasse ou surgisse pela primeira vez, digamos, na consciência pública.

Comecei a anotar, comecei realmente a mergulhar, a esquecer todas as minhas outras preocupações acadêmicas, e a minha vida acadêmica desde, digamos 1980, tem como seu centro a obra de Machado. Principalmente, fiz dois livros sobre ele no comecinho dos anos 80, um livro que é inteiramente sobre Dom Casmurro, que foi publicado na Inglaterra em 1984, e em tradução brasileira em 1991, intitulado Machado de Assis – Impostura e Realismo. Esse livro tenta fazer uma reinterpretação principalmente do enredo de Dom Casmurro, e até hoje, quando estou em sala de aula no Brasil e pergunto, faço uma pergunta simples: ¯ Qual é a motivação de José Dias para lembrar a d. Glória (no Capítulo 3 do romance) a promessa que ela fez de botar Bentinho no Seminário? ¯ as pessoas ainda hoje não sabem responder a essa pergunta simples, que está na base do romance.

E daí desenvolvi uma série de coisas. Eu tenho uma espécie de reputação um pouco exagerada de querer reduzir toda a literatura de Machado de Assis às suas referências históricas, e de fazer alegorias sobre os enredos dos romances etc. Não é o caso. Eu admito perfeitamente a riqueza da literatura machadiana, os múltiplos significados que os romances, os contos etc. podem ter, mas também acho útil ¯ muito inspirado pelo Roberto Schwartz ¯ revelar, ou seja, reconstituir um pouco o contexto histórico dos romances, dos contos etc.

Talvez a única outra coisa que eu diria aqui acerca desses dois livros é que o segundo deles, Machado de Assis Ficção e História, publicado em 1986, tem uma reinterpretação de Memorial de Aires, que ensina o leitor a desconfiar do narrador, o conselheiro Aires, e que monta uma espécie de outro enredo, um pouco no modelo do que a Helen Caldwell fez em cima de Dom Casmurro, argumentando que a Capitu, possivelmente, não traísse etc. ¯ é um pouco nesse modelo.

Uma das coisas que fiz em Ficção e História foi um Capítulo sobre uma série de crônicas de Machado; a série que ele publicou em 1888, 89 e que coincide com a Abolição da Escravatura e os prenúncios da República. Fui convidado pela Editora Hucitec para fazer uma edição crítica dessas crônicas. É um trabalhão porque, para entender essas crônicas, você tem que entender não só os eventos históricos que foram o contexto delas, mas você tem que propriamente ler os jornais. Você tem que ler os jornais para saber quais os eventos mínimos, os acontecimentos desimportantes do dia, mas que foram coisas que Machado comentava, de um jeito ou outro. São edições fartamente anotadas mas adequadamente anotadas, não exageradamente, para que o leitor de hoje possa entender essas crônicas, mais ou menos como um leitor de 1888 as teria entendido.

Continuei esse trabalho, publiquei um 2º volume de crônicas anotadas a terça parte da série mais famosa dele, A Semana, que foi publicado em 96, se não me engano, com os mesmos princípios então. Aí tendo me aposentado ¯ eu dei aula na Universidade de Liverpool durante 20 anos, mais de 20 anos, me aposentei em 94 ¯ aí desenvolvi uma série de outras atividades, que vieram interromper as minhas andanças machadianas. Mas continuei fazendo artigos etc., etc., e no ano que vem, se Deus quiser, vai ser publicado um novo livro de ensaios meus sobre Machado, sobre vários aspectos dos romances, dos contos, das crônicas etc. Eu acho que o estudo das crônicas, dos contos, das obras ditas menores de Machado é de grande importância, inclusive para entender os romances, as obras mais importantes, e acho que a edição competente das obras de Machado, das coisas dele, é super-importante também para o entendimento dele.

Fiz também uma antologia dos contos dele em 1999 (pela Companhia das Letras), que tem tido um certo sucesso. Muitas das edições das coletâneas, das antologias dos contos de Machado, que andam por aí, não são muito confiáveis, às vezes, e como Machado é um autor de domínio público, as Editoras, às vezes, não têm muito cuidado, elas simplesmente querem lucrar porque Machado é famoso. A minha edição foi feita com muito cuidado para estabelecer o texto, para dar algumas notas que ajudem o leitor a entender os contos de Machado, e sobretudo, para apresentar uma seleção maior, porque essa antologia contém 75 contos e a maioria das outras contém no máximo 30.

Então, continuo com esse trabalho e outra coisa que fiz depois de me aposentar: veio uma oferta da Oxford University Press para fazer uma tradução de Dom Casmurro, uma nova tradução ¯ porque já fora traduzido nos anos 50 por Helen Caldwell ¯ e isso decidi que se podia fazer, pois a tradução da Caldwell, embora não seja ruim, deixa a desejar em alguns sentidos. Portanto, achei que fosse útil fazer uma nova tradução e isso foi publicado, não sei exatamente o ano, 1997 ou por aí.

E agora veio uma oferta para publicar uma antologia dos contos de Machado em inglês, na Inglaterra, o que é uma oportunidade muito legal, porque o fato é que Machado de Assis, embora seja reconhecido sempre como o maior escritor brasileiro etc., etc., ele não tem a fama que merece no estrangeiro. E tudo que a gente possa fazer para que a obra dele seja apreciada lá, venda lá, tenha algum efeito lá, dê algum prazer lá, que ele seja reconhecido como o clássico da literatura mundial que ele é ¯ então, tudo que a gente possa fazer para que isso aconteça torna-se muito importante. É isso mesmo.

Obrigado.